04 março 2013

A poesia hoje - palestra com Paulo Henriques Brito.

Por Daniel Prestes

O que acabou com a Vanguarda foi a vitória da Vanguarda.
Antonio Cicero.

Palestra Poesia Brasileira Hoje, com Paulo Henriques Brito.
Foto: Daniel Prestes
Na palestra que rolou no dia 27/02, no Instituto de Artes do Pará, o poeta e tradutor Paulo Henriques Brito, iniciou a sua fala afirmando que, hoje em dia, há uma impossibilidade de se acompanhar o que se anda produzindo no país, mesmo e também, por conta da má distribuição dos livros no país, aliado ao volume da produção.

E segue dizendo que, a crítica se posiciona de modo negativo, considerando todo o material produzido atualmente como ruim, principalmente por colocar gerações distintas em comparação, sem levar em consideração as peculiaridades que levaram ao produto. Afinal, a grandeza só pode ser verificada em perspectiva, ninguém é clássico no presente.

Entre 22 e 68, mais ou menos, Brito considera que foi um período extremamente interessante, o que significa dizer, atípico e polarizado; em nenhum outro a produção poética foi tão forte e divergente. Houve embates, principalmente, surgidos por conta da questão mal resolvida da brasilidade. Deve-se lembrar de que, foi nesse período que os mitos nacionais foram instaurados, que é o ser brasileiro, os traços de identidade foram construídos.

Nesse período os escritores se definiam, evidenciavam a sua postura, qual era a sua estética. Haviam os manifestos. Todos tinham um programa, que era “exemplificado”, por meio de sua produção.

E todos, independente de como se colocavam diante da poética, atacavam a poesia acadêmica, o que era lido na escola. Ser lido nas escolas era tudo o que menos desejavam, até os anos 60, mais ou menos.

Já nos anos 70/80 as vanguardas não tinham mais o que atacar e assim “o que acabou com a vanguarda foi a vitória da vanguarda”, nas palavras de Cicero, de acordo com Paulo, e isso me lembra o poema  “De Roma”, de Janus Vitalis em uma tradução de Nelson Ascher, que diz o seguinte: Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo,/ para que nada mais seguisse invicto,/ jaz, na vencida Roma, Roma, a vencedora,/ pois Roma é quem venceu e foi vencida.

E que, a grande pretensão de acabar com as formas fixas, não aconteceu, sendo a grande conquista, a destruição da percepção de que essas formas são, na verdade, contingências e não essenciais.

Assim, o último suspiro no movimento pós-vanguardista foi a poesia marginal que, embora não tenha resistido e ficado datada, é importante pois bota um “fim” ao concretivismo e a poesia engajada, jogando a poesia pra fora de sua torre de marfim, pondo-a em circulação.

É também nesse momento da década de 90 em que a poesia começa uma reaproximação com o público, com as editoras e as velhas formas, os temas sublimes e etéreos. Assim temos, Glauco Mattoso, nas formas fixas e fetichismo; Cicero, também nas formas fixas e linguagem coloquial; Bruno Tolentino, com a tentativa de levar o etéreo ao extremo e Age de Carvalho, com as formas impessoais e temas subjetivos. Destarte, uma das grandes contribuições do poesia marginal é trazer a baila, de novo, o subjetivismo, que havia sido expatriados da produção poética.

Deste modo, chega-se aos poetas novos, com uma liberdade de produção não só nas formas que utilizam como também na não necessidade de estarem vinculados a um programa de escrita. Eles podem escrever sobre o que quiserem, por mais contraditórios que cada poema possa ser em sua concepção estética.

Há um ecletismo, eles são cosmopolitas porque não precisam mais definir o brasileiro; assim, citam obras estrangeiras lado a lado das brasileiras, assim como citam obras tidas como de “arte alta”, com referências da “arte baixa”, e isso advém, e muito, por esses poetas também serem tradutores, o que os familiariza com várias culturas. Neles, nem o verso livre é como o era dos modernos (longo e cheio de retórica), de acordo com Paulo, os versos atuais são curtos e não possuem autonomia, e há quase sempre um enjambement*. Esses novos poetas são subjetivistas e estão dentro das academias ou ligados a elas, diferentemente de seus antecessores.

Esses são os poetas novos, muito diferentes, como vimos, dos poetas das décadas anteriores, com os quais os críticos atuais foram formados, com questões de brasilidade em questão, por isso a dificuldade, de acordo com Brito, de serem aceitos. Os poetas novos estão, assim como o Brasil, bem resolvidos consigo mesmo, ao ponto de não precisarem mais reforçar constantemente a sua brasilidade.

*Enjambement (também conhecido como encavalgamento, embora a primeira forma seja preferida) é a ruptura de uma unidade sintática (uma frase, proposição ou sentença) no final de uma linha ou entre dois versos.

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