11 janeiro 2013

Soneto

Narciso
Ó“leo sobre tela de Cossiers, Museu do Prado, Madrid.

Fonte: Letras.UFRJ
Do século de ouro espanhol

A la orilla del agua estando un día,
ajena de cuidado, una hermosa
de mirarse su infierno deseosa,
por verse sola allí sin compañía,

la saya alzó que ver se lo empedía,
y, pagada de ver tan rica cosa,
le dice com voz mansa y amorosa
que de dentro del alma le salía:

"Por vos soy yo de tantos requebrada
por vos me dan aljorcas, gargantilla,
chapines, saya y manto para el frío.

Un beso quiero daros." Y abajada
a darle, por estar tan a la orilla,
trompicó de cabeza y dio en el río.

***

À beira d'água estando certo dia,
descuidada, uma dança primorosa,
de mirar o seu inferno desejosa
e vendo-se ali só, sem companhia,

a saia ergueu, que vê-lo lhe impedia
e, feliz de ver coisa tão preciosa,
disse, com doce voz de quem se goza,
e que de dentro d'alma lhe saía:

"Por vós eu sou de tantos requestada,
por vós me dão colares e pulseira,
sapatos, sia e manto para o frio.

"Um beijo quero dar-vos" e abaixada
para o dar escorregou na beira
e de cabeça despencou no rio.

PAES, José Paulo (seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. - São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 86-7.

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