18 janeiro 2013

O vendedor de flores

El vendedor de flores, Diego Rivera
Fonte: Diego Rivera Foundation

Certa manhã, então, em que tanto a sra. Cole quanto Emily haviam saído durante o dia e em que Louisa e eu (sem mencionar a criada) ficamos cuidando da casa, enquanto passávamos o tempo olhando a rua pelas vitrines da loja, o filho de uma mulher pobre, a qual ganhava duramente a vida remendando meias numa barraca das redondezas, ofereceu-nos uns buquês de flores que ele carregava numa cestinha. Com a venda desses buquês o pobre garoto ajudava com dificuldades a mãe a mantê-los a ambos; nem ele servia para qualquer outro meio de ganhar a vida, uma vez que era não apenas um perfeito retardado, ou idiota, mas gaguejava tanto que não havia como compreender nem mesmo aqueles sons que a sua meia dúzia, no máximo, de ideias animais o levavam a exprimir.

Os meninos e os criados da vizinhança lhe tinham dado o apelido de Dick Bondoso , porque o cordato simplório fa|zia [219] tudo o que lhe diziam à primeira ordem e por ele naturalmente não ter nenhum pendor para a maldade. Além disso, diga-se de passagem, ele era bem-feito, vigoroso, membros perfeitos, alto para a sua idade, forte como um cavalo e, no total, de traços muito bonitos; de forma que não era absolutamente uma figura de se desprezar, se os seus escrúpulos permitem, levando em conta essas coisas essenciais, passar por cima de um rosto mal lavado, cabelo emaranhado por falta de pente e uma roupa tão esfarrapada que ele poderia disputar com qualquer filósofo ateu para ver quem se destacava mais.

Já tínhamos visto muitas vezes esse garoto e comprado flores suas, por pura compaixão e nada mais. Mas, exatamente dessa vez, quando ele estava diante de nós, estendendo-nos a sua cesta um súbito capricho, um repente de frívola fantasia tomou conta de Louisa e, sem me consultar, ela o convida a entrar e, passando a examinar os seus ramalhetes, escolhe dois, um para ela mesma, outro para mim e, tirando do bolso meia coroa, deu-a a ele, com a maior naturalidade, para que fizesse o troco, como se ela de fato pensasse que ele pudesse ter troco para aquilo: mas o garoto, coçando a cabeça, fez com que os seus sinais explicassem sua impossibilidade, no lugar de palavras, que ele não conseguia, apesar de todos os seus esforços, articular.

Ao que Louisa lhe diz:

- Bem, meu rapaz, vamos lá em cima comigo que eu lhe darei a sua paga.

Piscando ao mesmo tempo para mim e fazendo sinal para que eu a acompanhasse, o que eu fiz, antes de tudo trancando a porta da rua, que dessa forma, junto com a loja, ficou aos inteiros cuidados da fiel criada.

Enquanto subíamos, Louisa sussurrou-me que havia sido tomada por uma estranha vontade de se certificar que a regra geral se aplicava a esse retardado, e até que ponto a natureza o teria compensado com os melhores dotes físicos por sua recusa dos mais sublimes dotes intelectuais; pedindo ao mesmo tempo minha ajuda para lhe conseguir [220] essa confirmação. A falta de complacência nunca foi o meu vício, e eu estava tão longe de me opor a essa frivolidade extravagante que, mordida pela mesma mosca, e minha curiosidade conspirando com a dela, entrei de cabeça naquilo por minha própria conta.

Consequentemente, assim que chegamos ao quarto de Louisa, enquanto ela se divertia com ele, escolhendo os seus ramalhetes, eu assumi a dianteira e parti para o ataque. Como não era muito apropriado ficar guardando as medidas com um mero retardado, fui logo tomando liberdades com ele, apesar de que, ao meu primeiro movimento de intrusão, sua surpresa e confusão o fizeram receber os meus avanços muito desajeitadamente; e não só isso, mas a um tal ponto que ele se assustou, tímido, e recuou um pouco, até que, encorajando-o com os meus olhos, puxando-o de brincadeira pelos cabelos, alisando-lhe o rosto e incentivando-o ao meu objetivo com um sem-número de brincadeiras assim, logo o fiz sentir-se mais à vontade e provoquei na natureza o seu mais doce sinal de alerta; de forma que, estimulado e começando a ter sensações, nós pudemos, em meio a todos os risos e sorrisos inocentes a que eu o levei, perceber o fogo brilhando em seus olhos e, espalhando por suas faces, misturar o seu fulgor com o dos seus rubores; a emoção, em suma, do prazer animal brilhava distintamente na expressão daquele simplório. Apesar disso, surpreso pela novidade da cena, ele não sabia para onde olhar nem se mexer; mas submisso, passivo, sorrindo timidamente, a boca meio aberta, num êxtase estúpido, ficou quieto e permitiu com doçura que eu fizesse com ele o que me agradasse: a cesta caiu-lhe das mãos, do que Louisa rapidamente cuidou.

Eu agora já havia, através dos vários rasgões, descoberto e sentido as suas coxas, cuja a pele parecia ainda mais macia e clara devido à aspereza e até mesmo à sujeira da sua roupa, tal como os dentes dos negros parecem mais brancos devido à escuridão em torno. E, sendo realmente pobre de constituição mental, pobre de compreensão, ele era, no entanto, riquíssimo em tesouros pessoais, tais como carne fir|me, [221] opulenta e repleta com os doces fluidos da juventude, bem como membros robustamente torneados. Meus dedos agora também haviam alcançado o verdadeiro, o genuíno caule da planta sensível, o qual, em vez de se encolher ao toque, alegra-se por senti-lo, engrossando e crescendo por completo: e o meu informando-me agradavelmente que as coisas estavam então no ponto de serem descobertas, considerando que eram pujantes demais para o confinamento que estavam a ponto de romper. Um cós de calça que soltei, e um trapo de camisa que afastei, e que não teria podido cobrir nem um quarto dele, revelou todo o estandarte de honra do idiota, ereto, em todo o esplendor da sua ostentação: mas que estandarte! Era positivamente de um tamanho tão tremendo que, preparadas como estávamos para ver algo extraordinário, ainda assim, fugindo ele a qualquer medida, ultrapassou as nossas expectativas e surpreendeu até a mim, que não estava acostumada a lidar com pouca porcaria. Em suma, ele poderia servir muito bem para ser posto em exposição: sua cabeça enorme parecia, na coloração e tamanho, não muito diferente do coração de uma ovelha comum; além disso, seria possível jogar dados em perfeita segurança ao longo do dorso largo do tronco; seu comprimento também era prodigioso; depois, o rico apêndice do saco de joias embaixo, largo na proporção, arrepanhado e franzido para cima, redondo, em sulcos rasos, ajudava a encher os olhos e completava a prova de que ele era um retardado não exatamente em vão, uma vez que era amplamente manifesto que havia herdado, e com largueza, a prerrogativa de majestade que distingue essa condição, de resto bastante infeliz, e dá origem ao dito vulgar de que “o cetro bufão é o brinquedo da rainha”. E não todo de todo sem razão; pois, falando de um modo geral, no amor, como na guerra, a arma mais longa é que ganha a batalha. A natureza, em suma, fizera tanto por ele naquelas partes que ela talvez tenha se sentido perdoada por ter feito tão pouco por sua cabeça.

Eu, de minha parte, que não tinha qualquer intenção de levar a brincadeira além de simplesmente satisfazer minha [222] curiosidade só com a visão daquilo, estava contente, apesar da tentação que me bailava diante dos olhos, em ter erguido um mastro para que outra nele pendurasse uma guirlanda; pois, àquela altura, lendo com facilidade os desejos de Louisa em seus olhos ávidos, interpretei o papel conveniente, e fiz para ela, que não esperava por mais que isso, sinais significativos de estímulo para levar avante a aventura; deixando claro, também, que eu ficaria para cuidar de que tudo corresse dentro dos conformes; no que, na verdade, eu tinha em vista satisfazer uma recém-surgida curiosidade de observar que aspecto a natureza ativa daria a um retardado, no decorrer de sua mais cara atividade.

Louisa, cujo apetite estava excitado e que, tal como a abelha operária, não estava, ao que parece, acima de sugar o mel de flor tão rara, apesar de encontra-la plantada num monte de esterco, estava pronta para tirar proveito da minha oferta: então, fortemente impulsionada por seus próprios desejos e estimulada por mim, ela se determinou a arriscar a liça com o idiota, que a esta altura estava nobremente inflamado para o seu proposito por todas as exasperações de que havíamos lançado mão para colocar os princípios do prazer em movimento com eficiência, e para distender as molas do seu órgão ao seu nível supremo; e ele se mostrou adequadamente rígido e distendido, pronto para prorromper no sangue e nos fluidos que o haviam intumescido a um tal volume! Não! Nunca vou esquecê-lo.

Louisa então, pegando e apertando aquela manivela vistosa, que se oferecia tão convidativa, puxou o dócil rapaz por aquela sua ferramenta-mestra, enquanto recuava até a cama, ao que ele se submeteu com alegria sob as incitações do instinto, e palpavelmente se entregou ao aguilhão do desejo.

E então, parando ao dar com a cama, ela tombou naquela queda que tanto apreciava e inclinou-se gentilmente, mais para trás que pôde, ainda segurando bem apertado aquilo que havia agarrado e tendo o cuidado de levantar convenientemente as suas roupas, de forma que as suas coxas, devidamente abertas e erguidas, deixavam à mostra toda a perspectiva [223] externa do tesouro do amor: a abertura dos lábios cor-de-rosa apresentando a arena da batalha tão claramente que não era natural que nem mesmo um idiota deixasse de percebê-la. Nem ele deixou; pois Louisa, cheia de desejo de atracar-se com ele e impaciente para qualquer preliminar ou demora, dirigiu com precisão a ponta daquele aríete e lançou-se com a fúria de um apetite tão voraz para receber e facilitar a estocada de inserção que a atividade frenética de ambos os lados a efetuou, mas com tamanha dor de distensão que Louisa gritou, com violência, ter sido você ferida acima do que era possível suportar, que ele a tinha matado. Mas era tarde demais; a tempestade já se havia desencadeado, e ela foi forçada a abrir-lhe caminho. Pois agora a máquina humana, violentamente acionada pela paixão sensual, sentiu com tanta virilidade a sua vantagem e superioridade, sentiu, além disso, a ferroada de um prazer tão intolerável, que, enlouquecendo com ela, a sua satisfação começou a adquirir um caráter de fúria, que me fez tremer pela excessivamente delicada Louisa. Ele ficou parecendo, nessa junção, ultrapassar a si próprio; a sua fisionomia, antes tão vazia de significado e expressão, agora cresceu com a importância do ato que realizava. Em suma, não ia ser agora que ele ia bancar o bobo para ninguém; mas, o que é bastante engraçado, eu própria fiquei espantada ao ponto de sentir uma espécie de respeito por ele, pelos atraentes terrores com que as suas emoções o haviam revestido, seus olhos lançando centelhas de fogo, seus rosto faiscando com ardores que lhe deram outra vida, seus dentes rangendo, todo o seu corpo agitado com uma impetuosidade avassaladora e ingovernável, tudo traindo, com a maior clareza, a ferocidade formidável com que o instinto genésico agia sobre ele. E então, arremetendo e rasgando tudo à sua frente, enlouquecido e desgovernado como um novilho picado em excesso, ele rasga o tenro sulco, insensível às queixas de Louisa. Nada pode parar, nada pode evitar uma fúria como essa; e, uma vez tendo posto a cabeça dentro, essa fúria cega logo abriu caminho para o resto, rasgando, lacerando e arrombando qualquer obstáculo. A jovem rasgada, fendida, fe|rida, [224] grita, luta, chama-me em seu socorro e tenta sair debaixo do jovem selvagem, ou empurrá-lo para fora, mas, ai, em vão! Seu fôlego poderia ter acalmado ou detido uma tempestade de inverno com tanta eficiência quanto a sua força conseguiu subjugar a bruta investida do rapaz, ou afastá-lo do seu curso. E, de fato, todos os seus esforços e empenhos foram encetados em tamanha desordem que serviram mais para enredá-la e cingi-la ainda mais apertada no entrelaçamento dos impetuosos braços dele; de tal forma que ela ficou presa na estaca e obrigada a encarar a luta, ainda que nela devesse morrer. Ele, por sua parte, movido pelo instinto como estava, as expressões de sua paixão animal, com um quê de ferocidade, eram mais esganamentos do que beijos, misturados com mordidas de amor ávidas, sôfregas, em suas faces e em seu pescoço cujas marcas só saíram alguns dias depois.

Pobre Louisa, no entanto, aos poucos foi aguentando melhor do que se poderia esperar; e, apesar de sofrer, e muito, ainda assim, sempre fiel à velha causa, ela sofreu com prazer e desfrutou da sua dor. E agora, à força de uma imposição enfurecida, a máquina bruta, penetrando como um furacão, fez tudo de pegar fogo novamente e, abrindo caminho até o ponto extremo, deixou-a, no que se refere a penetração, com nada mais a temer ou a desejar; e agora.

Fartada com a iguaria mais preciosa da terra...
(Shakespeare)

Louisa jazia, satisfeita até o fundo do coração, satisfeita até a sua mais profunda capacidade de assim se sentir, com cada fibra daquelas partes distendida quase ao ponto de se romper, numa tormenta de prazer, enquanto o instrumento de toda essa plenitude vasculhava os seus sentidos, com seu doce excesso, até que o gozo a subjugou de tal forma, a ponta dele picou-a tão fundo que, absorvendo finalmente a paixão do seu furioso cavaleiro e partilhando o desregramento do seu êxtase desenfreado, ela se desligou por completo da sua men|te, [225] para religar-se naquela parte favorita do seu corpo, cuja intensidade estava toda tão fervorosamente preenchida e ocupada: somente ali ela existia, tudo perdido naqueles transportes de delírio, naqueles êxtases dos sentidos, que os seus olhos cintilantes, o vermelhão afogueado dos seus lábios e faces e suspiros de prazer, arrancados do fundo, expressavam de forma tão patética. Em suma, ela era agora meramente uma máquina, e uma máquina em funcionamento acelerado, e tinha tão pouco comando sobre os seus movimentos quanto o próprio idiota, que assim irrompeu por ela adentro, a fez sentir violentamente o seu carinho tempestuoso e a força do ardor com que ele arremetia. Seus quadris ativos voltaram a estremecer com a violência do conflito, até que a onda de prazer, engrossando-se e precipitando-se para o alto, fez desabar a chuva de pérolas que iria aplacar esse furacão. O idiota puramente sensitivo, então, primeiro derramou aquelas lágrimas de alegria, que acompanham seus últimos movimentos, não sem uma agonia de gozo, e até mesmo quase um rugido de êxtase, quando o jato lhe escapou, de forma tão sensível também para Louisa, que ela lhe fez pontual companhia, explodindo com os conhecidos sintomas, um delicioso delírio, um sobressalto trêmulo e convulsivo e aquele “oh!” crítico, agônico. E gora, saindo ele de cima dela, ela ficou deitada, afogada no prazer e regurgitando as suas delícias essenciais: mas, bastante esgotada, quase sem fôlego, sem qualquer outra sensação de vida, senão naquelas vibrações intensas que ainda tremulavam nas cordas do deleite, as quais haviam sido tangidas de forma tão arrebatadora e com que a natureza havia sido agitada de forma extremamente intensa para que os sentidos se apaziguassem com rapidez.

Quanto ao retardado, cuja extraordinária máquina havia sido acionada com tamanho sucesso, sua mudança de fisionomia e gestos teve até mesmo algo de esquisito, ou antes, tragicômico: havia agora um ar de estupidez triste, lamuriosa, acrescentada ao seu ar natural de inexpressividade e idiotismo, nele ali em pé, com seu estandarte de virilidade, agora flácido, encolhido, acalmado, tombado sobre as suas coxas, batendo até [226] a metade delas, terrível mesmo em sua queda; enquanto, vítima do abatimento espiritual e físico que naturalmente se seguiu, seus olhos, que ora se voltavam para o seu estandarte caído, ora se erguiam para Louisa de um jeito que dava pena, pareciam pedir dela aquilo de que ele se havia separado, em benefício dela, com tanta dificuldade, o que agora lhe fazia uma falta dolorosa. Mas o vigor da natureza, logo retornando, dissipou esse sopro de fraqueza a que a lei geral do gozo o havia submetido; e agora sua cesta voltava a ser sua principal preocupação, e eu procurei por ela, trazendo-a de volta para ele, enquanto Louisa recompunha o estado de suas roupas e, depois, provavelmente o deixou mais alegre por ficar com todas as suas flores, pagando por elas o preço que ela pedia, do que se o tivesse constrangido com um presente que ele dificilmente conseguiria explicar e que poderia levar outras pessoas a querer saber o motivo pelo qual ele tinha sido dado.

Se ela algum dia voltou ao ataque, não sei e, para dizer a verdade, creio que não; ela já tinha tido a sua extravagância e havia satisfeito plenamente a sua curiosidade numa saciedade de prazer, o qual, conforme acabou acontecendo, não teve qualquer outra consequência, senão que o rapaz, que guardou apenas uma memória confusa da transação, sempre que a via, durante algum tempo após esse episódio, expressava um sorriso de alegria e familiaridade à sua maneira idiota e logo a esqueceu, provavelmente em favor da mulher seguinte que se sentiu tentada, ao saber sobre o seu membro, a convidá-lo a entrar.

CLELAND, John. Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer. Tradução Eduardo Francisco Alves. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2006. (Coleção L&PM Pocket; v.546). p. 218-26.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.