14 janeiro 2013

A Diaba e sua filha - a marginalização do diferente

Ilustração de Nadja, páginas 04 e 05 do livro. Fonte
Marie NDiaye, nascida em 1960, filha de mãe francesa e de pai senegalês, autora de "Coração Apertado" e ganhadora do Prêmio Goncourt com o  romance "Trois Femmes Puissantes" (Três Mulheres Poderosas), escreveu em 2000 A Diaba e sua filha, seu primeiro livro infanto-juvenil.

Capa do livro. Fonte
"A Diaba e sua filha", publicado no Brasil pela Cosac Naify e com texto de orelha de Mia Couto, trata da busca de uma Diaba por sua filha desaparecida. Assim, todas as noites a mulher que tem seus pés transformados em cascos de cabra sai batendo de porta em porta, perguntando se alguém sabe de sua filha. Todos lhe batem a porta na cara e se escondem, com medo e repulsa da figura deformada que lhes bate à porta de noite, como se essa fosse uma entidade demoníaca que pretendesse lhes causar algum mal.

Até que um dia, as pessoas da vila, onde a diaba busca a sua filha desaparecida, expulsam uma jovem menina que tem deformidade nos pés, acreditando que ela seja quem a Diaba procura todas as noites.

Ao ver a menina, a Diaba a carrega consigo e no caminho percebe que não tem mais cascos e que está diante de uma casa que antes não estava ali. Ela adentra essa habitação e vê-se na sua própria casa,  com sua filha. O sofrimento e a tristeza que lhe são impostas pelo desaparecimento da filha finda e com isso a sua deformidade também.

Sendo assim, podemos considerar que, o fato dela ter tido os pés transformados em cascos é a materialização ou metáfora do sofrimento que ela padece, daí ser chamada de "diaba", não por ser um demônio ou algo maléfico, mas sim por sofrer muito, por "sofrer que nem um diabo".

Daí, também podemos depreender que não é só a aparência grotesca que faz com que as pessoas se afastem da Diaba, mas a sua condição de sofredora, como se esse mal, vindo a noite, pudesse adentrar e se instalar em suas casas felizes, iluminadas e acolhedoras. E, o que eles tanto querem proteger, a sua felicidade, amor e harmonia, é o que também busca a "diaba".

Assim, como afirma Mia Couto na orelha de capa do livro: "NDiaye escreve sobre os nossos medos e o modo como eles são colectivamente construídos. Escreve sobre a necessidade de classificarmos os outros e os arrumarmos em bons e maus, em anjos e monstros. [...] se inscreve, enfim, a facilidade em culparmos e diabolizarmos os que são diferentes[...]", afastando-os de nós, e, nesse processo de marginalização, negando-lhes o direito as mesmas coisas que temos.

A Diaba e sua filha, um livro categorizado como infantil, pela estrutura e elementos usados em sua construção, é um livro que deve ser lido por todos, pela leveza que trata de assuntos importantes e verdadeiros, pois, embora se passe em um ambiente de características irreais, parece ser mais por uma questão de fazer com que percebamos a universalidade do tema e como ele está presente em nosso cotidiano, do que servir unicamente de entretenimento para crianças.



A Diaba e sua filha
Autor: Marie NDiaye
Ilustrações: Nadja
Tradução: Paulo Neves
Texto de orelha: Mia Couto
Editora: Cosac Naify
Páginas: 40
Preço: R$ 25,00

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.