13 dezembro 2012

Do vosso ventre


Daniel Prestes

Era mais uma madrugada típica, entre os livros, programas de tevê mudos e doses de café, que mantinham o meu espírito aquecido, meu corpo acordado e minha insônia azeitada.

Tudo era silêncio, ou seria acaso não fossem os gatos nos telhados e o farfalhar das folhas dos livros, que eu lia.

Afora isso, tudo era silêncio e escuridão pela casa, que com exceção de mim, também abrigava sob as suas telhas minha mãe, no quarto ao lado, dormindo.

Ainda era um pouco mais de quatro horas da manhã, embora os relógios insistissem em me dizer outra coisa. Aqui não há horário de verão, assim ficamos temporalmente relegados ao passado das coisas e a tudo o que não é daqui, penso eu algumas vezes (ou quase sempre), agora.

Passava das quatro horas e me preparava para dormir, mesmo que sono algum corresse por minhas veias, que estavam empestadas de cafeína, conferindo ao meu corpo mais que uma sensação de “estar acordado”. Estava mais para um: “Alerta. Perigo!”.

Ignorando os sinais que meu corpo transmitia, apaguei a luz e me enrosquei debaixo de meu edredom, de olhos fechados, tentando cair no sono.

E é aqui que tudo começa a ficar estranho.

É por causa do que vai acontecer a seguir que eu vim parar aqui. Se não fosse por isso, nunca nos conheceríamos e nem existiria essa história que lhe conto.

Deitei-me, embora sono não tivesse e, passado certo tempo, ainda não o tinha. Contudo, uma sensação de torpor invadiu-me. Parecia que eu tinha ingerido bebida alcoólica, até o ponto limite entre o estar completamente bêbado e o coma.

Não conseguia mover o dedinho do pé ou qualquer outra parte de meu corpo, nem mesmo podia abrir os olhos.

O mesmo não se aplicava aos meus sentidos, que pareceram ficar mais aguçados.

Podia sentir as dobras do edredom que se enroscava e sufocava o meu corpo com o seu calor, dando-me a impressão ainda mais nítida de estar preso e impossibilitado de movimentos.

Meus ouvidos amplificavam todos os ruídos ao meu redor, que podia fazer imagens mentais vívidas do que acontecia nos outros cômodos da casa, onde móveis eram arrastados por homens de voz rouca, que riam-se por nada.

Em meu quarto, pequenos gorilas de olhos cruéis me encaravam e gesticulavam com raiva em minha direção, como se também impossibilitados de fazer algo (contra mim), se aliviassem com aqueles gestos.

Tudo isso se tornou angustiante e insuportável, queria me levantar, mas todos os meus esforços eram inúteis...

E os homens riam-se. E os macacos gesticulavam com raiva.

Frente a isso, resgatei em mim a pouca fé que tenho e comecei a rezar, não por mim, mas por minha mãe.

De algum modo, eu sabia que aquilo tudo só estava acontecendo para que dela eu ficasse longe, sem poder ajudá-la.

Eu tentava rezar e as palavras me faltavam, se escondiam, fugiam... Minha língua enrolava ou elas se misturavam, embaralhavam...

imagem encontrada em #nogabinete
Pai nosso que estais no céu
Sois vós entre as mulheres
Aqui na terra como no céu
De Deus Pai Todo Poderoso
Criador deste e da Terra
És o bendito fruto do vosso ventre,
Santa Maria
Amém.

E eu reiniciava tudo de novo: levantar, rezar. De novo e de novo e de novo...

Então, tudo se dissipou como em um passe de mágica, e eu pude me mexer, rezar e sair do quarto. O dia já amanhecia e o relógio digital marcava seis horas da manhã, em cor de des[en]carnado.

Fui direto ao quarto da minha mãe, que parecia dormir. Dormia.

Chamei-a. Uma. Duas. Três vezes. E, ao tocá-la, na quarta vez, percebi que ela dormia envolta num lago de sangue.

Foi aí que notei que, em minhas mãos, uma faca tingida de escarlate era segurada como um rosário, e eu rezava.

Foi assim que eu fui encontrado, às oito da manhã, pela empregada, que foi quem chamou a polícia, pelo menos foi o que me disseram depois.

Fui levado para um psiquiatra, que me diagnosticou com um raro caso de surto de esquizôfrenia, que, de acordo com ele, foi desencadeado pelo alto teor de cafeína no organismo.

Desde então, eu vivo aqui, nessa penitenciária. Há dois anos, eu cuido (ajudo a cuidar) da biblioteca, onde acostumei a conviver com Édipo, Medeia...

Um comentário:

Ronrone à vontade.