28 novembro 2012

A casa abandonada (última parte)


H. P. Lovecraft

V

Eu estivera deitado com o rosto voltado para o outro lado da cadeira de meu tio, de modo que ao despertar assim subitamente só vi a porta da rua, a janela do lado norte e a parede, o chão e o teto que davam para o lado norte do porão, tudo isso fotografado com mórbida nitidez em meu cérebro, sob uma luz mais fulgurante do que o brilho dos fungos ou a iluminação baça dos postes da rua. Não se tratava de uma luz forte ou mesmo medianamente forte. No entanto, ela projetava a sombra de meu corpo e do catre no chão e possuía uma força amarelada e penetrante que traía coisas mais potentes que luminosidade. Percebi isto com clareza malsã, a despeito do fato de dois outros sentidos meus estarem sendo violentamente agredidos: em meus ouvidos ecoavam as reverberações daquele grito chocante, enquanto meu nariz se revoltava diante da catinga que reinava no lugar. Minha mente, tão alerta quanto meus sentidos, identificou a gravidade insólita da situação e quase automaticamente me pus de pé, num pulo, e me virei para pegar os instrumentos de destruição que havíamos deixado apontados para a mancha bolorenta diante da lareira. Ao me virar, eu temia o que estava prestes a ver, pois o grito tivera a voz de meu tio e eu ignorava contra que ameaça eu estaria de defender a ele e a mim mesmo.

No entanto, afinal a visão foi pior do que eu havia temido. Há horrores que ultrapassam o horrível, e aquilo era um daqueles núcleos de pavor onírico que o universo separa para com ele fulminar alguns desgraçados. Do chão de terra, coberto de fungos, evolava-se uma vaporosa luz cadavérica, amarela e doentia, que borbulhava e ondulava, alcançando uma altura gigantesca, com contornos vagos, semi-humanos e semimonstruosos, através dos quais eu podia avistar a chaminé e a lareira mais além. Era todo olhos – lupinos e escarnecedores – e a cabeça rugosa, como de inseto, dissolvia-se no a’to e se transformava numa esgarçada fumarola de névoa que se contorcia putridamente e finalmente desaparecia pela chaminé. Digo que avistei a coisa, mas foi somente num retrospecto consciente que cheguei a traçar de modo definido sua demoníaca aproximação a uma forma. No momento aquilo se me afigurou apenas como uma revolta nuvem opacamente fosforescente de repugnância fungosa, que revoluteava e que dissolvia, numa asquerosa plasticidade, o único objeto em que toda minha atenção se concentrava. Esse objeto era meu tio – o venerando Elihu Whipple, que com uma fisionomia pretejante e em decomposição me olhava malevolamente e engrolava frases incompreensíveis, estendendo garras gotejantes para me despedaçar, na fúria que aquele horror havia ocasionado.

Foi um senso de rotina que me salvou do enlouquecimento. Eu me exercitara para o momento crucial e o treino cego me valeu. Percebendo que a entidade borbulhante não possuía substância alcançável pela matéria ou pela química material, e esquecendo por isso o lança-chamas que se encontrava à minha esquerda, liguei a corrente do tubo de Crookes e assestei contra aquela cena de blasfêmia imortal as mais intensas radiações que a arte humana é capaz de produzir a partir dos espaços e dos fluidos da natureza. Houve uma bruma azulada e um alvoroço frenético, e a fosforescência amarelada se fez mais opaca. Contudo, vi que a opacidade era apenas questão de contraste e que as ondas da máquina não exerciam absolutamente nenhum efeito.

Foi então que, em meio daquele espetáculo diabólico, vi um novo horror que levou gritos a meus lábios e me fez sair aos tropeções na direção da porta destravada que dava para a rua sossegada, sem atentar aos horrores anormais que eu pudesse estar trazendo ao mundo ou aos pensamentos e juízos humanos que eu provocasse em relação a mim. Naquela mescla baça de azul e amarelo, o vulto de meu tio havia começado a passar por uma liquefação nauseante cuja essência foge a qualquer descrição e na qual desenrolavam-se-lhe no rosto mudanças de identidade que só a demência é capaz de conceber. Ele era a um só tempo um diabo e uma multidão, um ossuário e um préstito. Iluminado pelos raios misturados e instáveis, aquele rosto gelatinoso assumia uma dezena… uma vintena… uma centena de fisionomias; gargalhava ao derrear-se no chão, num corpo que derretia como sebo, à imagem caricata de legiões ao mesmo tempo estranhas c conhecidas.

Vi os traços da família Harris, de adultos e crianças, masculinos e femininos, e outras fisionomias velhas e jovens, rudes e refinadas, familiares e desconhecidas. Por um segundo fulgiu ali uma contrafação degradada de uma miniatura da infeliz Rhoby Harris que eu tinha visto no Museu da Escola de Desenho, e em outro instante julguei captar a imagem ossuda de Mercy Dexter, que eu conhecera através de uma pintura na casa de Carrington Harris. Tudo aquilo era indescritivelmente pavoroso; já perto do fim, quando uma curiosa mistura de semblantes de criada e de bebê cintilaram perto do chão fungoso, onde se espalhava uma poça de graxa esverdeada, foi como se os semblantes cambiantes lutassem entre si e se esforçassem por formar contornos semelhantes aos do rosto bondoso de meu tio. Apraz-me pensar que ele existiu naquele momento e que tentou despedir-se de mim. Tenho a impressão de haver soluçado um adeus em minha própria garganta ressecada, enquanto me precipitava para a rua, com um fiapo de graxa a me seguir pela porta até a calçada encharcada. O resto é nebuloso, horrendo. Não havia vivalma na rua molhada, nem existia no mundo uma só pessoa a quem eu ousasse narrar o acontecido. Saí caminhando a esmo em direção ao sul, passando por College Hill e pelo Ateneu, desci a Hopkins Street e atravessei a ponte para a zona comercial, onde edifícios altos pareciam proteger-me como as coisas materiais modernas protegem o mundo de portentos antigos e malsãos. Depois a aurora acinzentada apontou a leste, silhuetando a colina arcaica e suas torres veneráveis, chamando-me ao local onde meu trabalho terrível ainda estava por terminar. E por fim voltei caminhando, molhado, sem chapéu e aturdido na luz matutina, e entrei naquela porta vitanda na Benefit Street que eu havia deixado entreaberta e que ainda balouçava cripticamente à plena vista dos antigos moradores, a quem eu não ousava falar. A graxa sumira, pois o chão bolorento era poroso. E diante da lareira não restava vestígio do vulto dobrado em dois. Vi o catre, as cadeiras, os instrumentos, o chapéu que eu tinha esquecido e o chapéu de palha amarelada de meu tio. Preponderava o atordoamento, e eu mal distinguia o que era sonho e o que era realidade. Depois a razão predominou e percebi que havia assistido a coisas mais tétricas do que as que havia sonhado. Sentando-me, procurei adivinhar, até onde a sanidade me permitia, exatamente o que havia acontecido, e como eu poderia dar cabo do horror, se realmente ele tivesse sido real. Não parecia ter sido matéria, nem éter, nem qualquer coisa concebível pela humana razão. Que seria, pois, senão alguma exótica emanação, algum vapor vampiresco como aqueles que, afirmam os aldeões de Exeter, pairam sobre certos cemitérios? Ali, eu sentia, estava minha pista, e mais uma vez desci os olhos para o chão diante da lareira onde o bolor e o mofo haviam assumido estranhas formas. Daí a dez minutos eu me decidira e, pegando o chapéu, fui à minha casa, onde banhei-me, comi e encomendei pelo telefone uma picareta, uma pá, uma máscara militar contra gases e seis garrafões de ácido sulfúrico, que deveriam ser entregues na manhã seguinte na porta do porão da casa abandonada na Benefit Street. Depois disso, procurei conciliar o sono; não conseguindo dormir, passei as horas lendo e compondo versos tolos, para distrair o espírito.

Às onze horas da manhã, comecei a cavar. Fazia sol e isso me agradava. Ainda estava só, porque por mais que temesse o horror desconhecido que procurava, eu mais receava contar a alguém o que havia acontecido. Mais tarde, só contei a Harris por pura necessidade e porque ele havia escutado histórias estranhas da boca de anciãos, o que não o predispunha a acreditar em tudo aquilo. Enquanto eu revirava a terra negra e malcheirosa diante da lareira, com minha pá fazendo escorrer uma viscosa sânie amarela dos fungos brancos que ela decepava, estremecia ao pensar no que poderia vir a exumar. Alguns segredos da terra não são bons para a humanidade, e aquele parecia ser um deles.

Minha mão tremia perceptivelmente, mas eu prosseguia, e depois de algum tempo meti-me na grande cova que havia cavado. Ao se aprofundar o buraco, que teria quase dois metros de lado, o fedor aumentou e já não me restava qualquer dúvida de que estava na iminência de estabelecer contato com a coisa demoníaca cujas emanações haviam atormentado a casa durante século e meio. Eu ficava a imaginar como seria – qual sua forma e sua substância, que tamanho poderia ter adquirido depois de longas eras de absorção de vidas. Por fim saí do buraco e dispersei a terra amontoada; dispus os garrafões de ácido em dois lados da cova, de modo que quando necessário eu os pudesse despejar pela abertura em rápida sucessão. A partir daí, comecei a lançar terra só para dois lados, trabalhando mais devagar e colocando a máscara contra gases quando o mau cheiro aumentou. Eu me sentia quase fora de mim pela proximidade de alguma coisa de inominável no fundo da cova.

De repente, minha pá bateu em algo mais macio que terra. Sobressaltei-me e fiz um movimento como que para pular fora do buraco, no qual eu já me encontrava afundado até o pescoço. Voltou-me então a coragem e tirei mais um pouco de terra, valendo-me da luz da lanterna elétrica que eu trouxera. A superfície que eu havia exposto era viscosa e vítrea – uma espécie de geléia congelada semipútrida, com impressões de translucidez. Tirei mais alguma terra e constatei que a coisa tinha forma. Havia uma rachadura no ponto em que parte da substância se achava dobrada. A área exposta era imensa e aproximadamente cilíndrica, como uma gigantesca chaminé de fogão, macia e branco-azulada, dobrada em dois, tendo sua parte maior mais de meio metro de diâmetro. Continuei a tirar terra e então, de repente, saltei fora do buraco e me afastei daquela coisa repelente. Destampei com frenesi os garrafões e verti seu conteúdo corrosivo, um a um, naquela cova cemiterial e sobre aquela anormalidade inimaginável cujo cotovelo eu tinha visto. O cegante torvelinho de vapor amarelo-esverdeado que irrompeu tempestuosamente daquela cova, no mo mento em que saíram os jorros de ácido, jamais se apagará de minha memória. Em toda colina as pessoas ainda falam do dia amarelo, quando exalações virulentas e hórridas se ergueram dos detritos da fábrica, que eram lançados no rio Providence, mas bem sei o quanto estão enganados quanto à fonte daqueles vapores. Falam também do medonho rugido que brotou ao mesmo tempo de algum encanamento de água ou de gás sob a terra – mas também nisso eu os corrigiria se a tanto me atrevesse. Foi algo indizivelmente chocante e não sei como sobrevivi à experiência. Cheguei mesmo a desfalecer depois de despejar o quarto garrafão, o que fiz depois que as emanações começaram a penetrar em minha máscara; quando recobrei os sentidos, porém, constatei que a cova não mais emitia vapores.

Esvaziei os dois garrafões restantes sem resultados notáveis, e depois de certo tempo julguei seguro voltar a tapar o buraco com terra. Caía o crepúsculo quando terminei o trabalho, mas o medo desaparecera daquele lugar. A umidade era menos fétida e todos os estranhos fungos haviam fenecido, transformando-se numa espécie de pó inofensivo que cobria o chão como cinzas. Um dos mais terríveis segredos da terra havia perecido para todo sempre; e se existe mesmo um inferno, ele havia recebido enfim a alma danada de uma coisa ímpia. E enquanto eu socava a última pazada de terra bolorenta, verti a primeira de muitas lágrimas com que tenho rendido atributo sincero à memória de meu tio amado.

Na primavera seguinte, não nasceu grama pálida nem ervas estranhas no jardim da casa abandonada, e pouco tempo depois Carrington Harris alugou-a. Ainda hoje ela é espectral, mas sua estranheza me fascina e por certo verei somar-se a meu alívio uma saudade singular quando ela for demolida para dar lugar a uma loja espaventosa ou a um vulgar edifício de apartamentos. As velhas árvores estéreis do quintal já começaram a produzir pequenas maçãs doces, e no ano passado os pássaros fizeram ninhos em seus galhos retorcidos.

Fim

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