14 novembro 2012

A casa abandonada (terceira parte)

H. P. Lovecraft


III

Bem se pode imaginar como os anais dos Harris me impressionaram. Naquela crônica contínua, parecia-me espreitar um malefício persistente, os fatos mais antinaturais que já me tinham sido dado conhecer. Essa impressão foi confirmada pela coletânea de dados menos sistemáticos, coletados por meu tio – lendas transcritas de conversas de criados, recortes de jornais, cópias de atestados de óbito firmados por colegas médicos etc. Não há possibilidade de eu divulgar todo esse material, uma vez que meu tio era um incansável colecionador de antigualhas e se interessava profundamente pela casa abandonada. No entanto, poderei fazer referência a vários tópicos dominantes, que atraem a atenção devido ao fato de aparecerem em muitas fontes diversas. Por exemplo, em seu disse-que-disse, os criados eram quase unânimes em atribuírem ao porão fungoso e mau-cheiroso da casa uma vasta supremacia no tocante à influência maléfica. Havia criadas (principalmente Ann White) que não usavam a cozinha do porão e pelo menos três histórias bem definidas se referiam aos estranhos contornos quase humanos ou diabólicos assumidos pelas raízes ou manchas de bolor naquela área. Essas últimas narrativas interessaram-me profundamente, em virtude do que eu mesmo tinha visto na meninice, mas ficou-me a impressão de que o alcance de cada caso havia sido em grande parte obscurecido por acréscimos provenientes do folclore local.

Com suas superstições de Exeter, fora Ann White quem propalara a história mais fantástica e ao mesmo tempo mais consistente. Afirmava ela que debaixo da casa deva estar enterrado um daqueles vampiros – os mortos que conservam sua forma corporal e se nutrem do sangue ou do hálito dos vivos – cujas hediondas legiões soltam à noite seus vultos ou espíritos rapinantes. Para se destruir um vampiro, dizem as comadres, é preciso exuma-lo e queimar seu coração, ou pelo menos atravessar com uma estaca aquele órgão; e a insistência obstinada de Ann no sentido de que se desse uma busca sob o porão desempenhara papel importante em sua demissão. Suas histórias, no entanto, gozavam de ampla aceitação, tanto mais porque, com efeito, a casa situava-se em terras utilizadas no passado para sepultamentos. Para mim o interesse despertado por essas histórias baseava-se menos nessa circunstância do que na maneira peculiarmente apropriada como coincidiam com algumas outras coisas – a queixa do criado Preserved Smith, ao deixar o emprego, de que alguma coisa havia “sugado sua respiração” de noite (Preserved precedera Ann e nunca tinha ouvido falar dela); os atestados de óbito de vítimas da febre em 1804, firmados pelo Dr. Chad Hopkins, segundo os quais todas as quatro pessoas falecidas estavam inexplicavelmente sem sangue; e as passagens obscuras dos delírios da pobre Rhoby Harris, nas quais ela se queixava dos dentes afiados de uma presença de olhos vítreos, semivisível.

Por mais livre de infundadas superstições que eu seja, essas coisas provocavam em mim uma sensação singular, intensificada por dois recortes de jornal, bastante separados pelo tempo, que diziam respeito a mortes ocorridas na casa abandonada. Um deles era o Providence Gazette and Country-Journal, de 12 de abril de 1815, o outro do Daily Transcript and Chronicle, de 27 de outubro de 1845. Ambos pormenorizavam uma circunstância espantosamente sinistra, cuja duplicação era extraordinária. Ao que parece, em ambos os casos os mortos (em 1815, uma delicada anciã chamada Stanford; em 1845 um mestre-escola de meia-idade, de nome Eleazar Durfee) ficaram horrivelmente transfigurados; com os olhos vidrados, teriam tentado morder a garganta do médico assistente. Ainda mais enigmático, porém, foi o episódio final, que pôs fim às tentativas de alugar a casa uma série de mortes por anemia, precedida por loucura progressiva durante a qual os pacientes astuciosamente atentavam contra a vida dos parentes, mediante incisões no pescoço ou nos pulsos.

Isso foi em 1860 e 1861, pouco depois de meu tio haver começado a clinicar. E antes de partir para a frente de luta ele havia escutado muita coisa da boca de colegas mais velhos. O fato realmente inexplicável era a maneira como as vítimas – pessoas ignorantes, pois a casa malcheirosa, que todos mais evitavam, não mais podia ser alugada a outra classe de gente – balbuciavam maldições em francês, língua que não poderiam de modo algum ter estudado. Aquilo fazia 1embrar a infeliz Rhoby Harris, quase um século antes, e tanto impressionou meu tio que ele começou a coletar informações históricas sobre a casa, depois de escutar, algum tempo após sua volta da guerra, o primeiro relato em primeira mão dos Drs. Chase e Whitmarsh. Na verdade, eu percebia que meu tio havia refletido longamente sobre a questão e que se comprazia com meu próprio interesse – um interesse receptivo e compassivo que lhe permitia discutir comigo assuntos que para outras pessoas só constituiriam motivos de risota. Sua fantasia não fora tão longe quanto a minha, mas ele acreditava que o lugar era rico de potencialidades imaginativas e digno de nota como inspiração no campo do grotesco e do macabro.

De minha parte, eu estava dispostos a encarar o assunto com a máxima seriedade e comecei imediatamente a não só analisar os dedos existentes como a acumular outros novos, tanto quanto possível. Conversei com o idoso Archer Harris, então proprietário da casa, muitas vezes antes de sua morte em 1916; e obtive, tanto dele quanto de sua irmã solteira Alice, ainda viva, uma corroboração autêntica de todos os dados de família que meu tio havia coligido. Quando, entretanto, lhes perguntei que ligação a casa poderia ter com a França ou com a língua francesa, eles se confessaram tão francamente perplexos e ignorantes quanto eu. Archer de nada sabia e tudo quanto Miss Harris pôde dizer foi que talvez uma velha alusão por seu avô, Dutee Harris, pudesse esclarecer alguma coisa. O velho marinheiro, que sobrevivera à morte do filho Welcome em batalha por dois anos, não conhecera pessoalmente a lenda, mas lembrava-se de que sua primeira ama, a velha Maria Robbins, parecia sombriamente ciente de alguma coisa que poderia ter emprestado funesto significado aos delírios de Rhoby Harris em francês, que ela tantas vezes escutara durante os últimos dias daquela desgraçada mulher. Maria havia morado na casa abandonada desde 1769 até a mudança da família em 1783 e tinha visto Mercy Dexter morrer. De certa feita ele insinuara ao menino Dutee que houvera uma circunstância peculiar nos últimos momentos de Mercy, mas ele logo se esquecera de tudo aquilo, salvo que tinha sido algo de singular. A neta, ademais, lembrava-se até mesmo disso com dificuldade. Ela e o irmão não estavam tão interessados na casa quanto o filho de Archer, Carrington, o atual proprietário, com quem conversei depois de minha experiência.

Havendo obtido da família Harris toda informação que ela podia proporcionar, voltei a atenção para os antigos registros e anais da cidade, com ardor mais ferrenho do que meu tio demonstrara ocasionalmente no mesmo mister. O que eu desejava era uma história completa do lugar, desde o início de sua ocupação, em 1636 ou mesmo antes, se fosse possível desencavar alguma lenda dos índios Narragansett capaz de fornecer informações. Descobri, de saída, que o terreno tinha feito parte da longa faixa concedida originariamente a John Throckmorton; era uma dentre várias faixas semelhantes que começavam na Town Street, à beira do rio, e que subiam pela colina até uma linha que corresponde hoje, grosso modo, a Hope Street. Mais tarde, naturalmente, a terra de Throckmorton tinha sido muito subdividida; e eu me apliquei com afinco em estudar aquela parte que seria posteriormente atravessada pela Back ou Benefit Street. Ela fora, dizia com efeito um boato, o cemitério dos Throckmorton. Entretanto, examinando mais detidamente os registros, dei-me conta de que os túmulos tinham sido todos transferidos para o Cemitério do Norte na Pawtucket West Road.

Foi então que de repente – e de maneira inteiramente fortuita, pois o documento não integrava o corpo principal da investigação e poderia ter facilmente passado despercebido – dei com uma coisa que suscitou em mim o mais vivo entusiasmo, por se ajustar à maravilha aos aspectos mais curiosos do mistério. Tratava-se do assentamento da cessão, em 1697, de uma jeira de terra a um certo Etienne Roulet e sua mulher. Por fim havia aparecido o elemento francês – isso e um outro elemento mais profundo de horror que o nome evocava nos recessos mais sombrios de minhas leituras fantásticas e heterogêneas – e pus-me a estudar febrilmente a planta da área, tal como ela fora antes do atalhamento e da parcial retificação da Back Street entre 1747 e 1758. Descobri o que de certa forma esperava: onde ficava hoje a casa abandonada os Roulets haviam feito seu cemitério, por trás de um chalé com sótão. Não existia qualquer registro de transferência de túmulos daquele sítio. O documento, na verdade, terminava de modo assaz confuso e fui obrigado a vasculhar tanto a Sociedade Histórica de Rhode Island quanto a Biblioteca Shepley antes de conseguir descobrir uma porta que o nome Etienne Roulet pudesse destrancar. Por fim, descobri uma coisa: uma coisa de significado tão vago, mas monstruoso, que me dispus incontinenti a examinar o porão da casa abandonada com redobrado e excitado rigor.

Os Roulets, ao que parecia, tinham chegado em 1696 de East Greenwich, na margem ocidental da baía de Narragansett – Eram huguenotes de Caude e haviam encontrado muita oposição antes que os conselheiros municipais os autorizassem a se estabelecer na cidade. A impopularidade os perseguira em East Greenwich, para onde tinham ido em 1686, após a revogação do Edito de Nantes, e dizia-se que a causa da antipatia ia além de meros preconceitos racionais e nacionais ou dos litígios de terras que contrapunham outros franceses aos ingleses, em rivalidades que nem o governador Andros podia solucionar. Contudo, seu ardoroso protestantismo – ardoroso demais. Havia quem murmurasse – e sua evidente aflição ao serem praticamente expulsos da vila haviam-lhe propiciado um refúgio; e o corpulento Etienne Roulet, menos dado à agricultura que à leitura de livros estranhos e à confecção de estranhos diagramas ganhou um cargo de escriturário no armazém do cais de Pardon Tillinghast, no extremo sul da Town Street. Entretanto, ocorrera uma briga mais tarde – talvez quarenta anos depois, após a morte do velho Roulet – e ninguém parecia ter tido notícias da família depois disso. Durante um século ou mais, parecia, os Roulets tinham sido bastante lembrados e discutidos freqüentemente, como vívidos incidentes na vida pacata de um porto de Nova Inglaterra. O filho de Etienne, Paul, um sujeito arrogante cujo comportamento imprevisível provavelmente provocara a briga que havia dado fim à família, constituía, particularmente, fonte de especulações. E muito embora Providence jamais houvesse compartilhado do pavor que seus vizinhos puritanos tinham da feitiçaria, as comadres comentavam livremente que as orações de Paul não eram pronunciadas nos momentos adequados, nem se dirigiam à entidade apropriada. Tudo isso, indubitavelmente, havia constituído a base da lenda conhecida pela velha Maria Robbins. Que relação ela teria com os delírios em francês de Rhoby Harris e de outros habitantes da casa abandonada, só a imaginação ou descobertas futuras poderiam determinar. Eu ficava a imaginar quantas, dentre as muitas pessoas que haviam conhecido as lendas, tinham consciência daquele elo adicional com o sobrenatural que leituras mais amplas haviam-me proporcionado; aquele dado agourento dos anais do horror mórbido que se refere à criatura Jacques Roulet, de Caude, que em 1598 foi condenado à morte por satanismo, sendo posteriormente salvo da fogueira pelo parlamento de Paris e confinado num hospício. Ele havia sido encontrado numa floresta, coberto de sangue e tiras de carne, pouco depois da morte e do despedaçamento de um menino por um par de lobos. Um dos animais fora visto fugindo incólume. Decerto tratava-se de uma interessante história a ser contada ao pé da lareira, uma história de sugestivo significado quanto ao protagonista e ao local. No entanto, cheguei à conclusão de que em geral o povo de Providence decerto não teria tomado conhecimento dela. Conhecessem-na, a coincidência de nomes teria provocado alguma ação drástica e assustada… Na verdade, não era crível que alguma alusão a ela, à boca pequena, tivesse precipitado o distúrbio final que havia feito os Roulets desaparecerem da cidade?

Eu agora visitava o lugar sinistro com mais freqüência; estudava a vegetação raquítica do jardim, examinava todas as paredes do prédio e me detinha em cada palmo do chão de terra do porão. Por fim, com a permissão de Carrington Harris, mandei fazer uma chave para a porta do porão que dava diretamente para a Benefit Street, por preferir dispor de um acesso mais imediato ao mundo exterior do que o proporcionado pelas escadas escuras, o salão do andar térreo e a porta da frente. Ali, onde a morbidez se ocultava mais densamente, eu procurava e investigava durante longas tardes em que a luz do sol penetrava pela porta, coberta de teias de aranha, acima do nível da rua, e que me colocava a pequeníssima distância da plácida calçada, na rua. Meus esforços não foram recompensados por nada de novo – somente o mesmo bolor deprimente e leves impressões de odores perniciosos e de contornos nitrosos no chão – e imagino que muitos transeuntes tenham-me olhado com curiosidade através das vidraças quebradas.

Por fim, atendendo a uma sugestão de meu tio, resolvi visitar o lugar de noite; e numa meia-noite tempestuosa corri o facho de uma lanterna elétrica pelo chão mofado, com suas formas bizarras e seus fungos distorcidos, semifosforescentes. O lugar me havia deprimido curiosamente aquela noite e eu me sentia quase preparado quando vi – ou julguei ver – em meio aos depósitos esbranquiçados a definição particularmente nítida do “vulto dobrado” de que eu suspeitara na infância. Sua clareza era assombrosa e sem precedentes – e enquanto eu olhava julgava rever a emanação rala, amarelenta e tremeluzente que me sobressaltara naquela tarde de chuva havia tantos anos.

A exalação subia sobre a mancha antropomórfica de bolor junto da lareira, um vapor sutil, doentio, quase luminoso que, ao pairar tremulamente na umidade, parecia assumir vagas e chocantes sugestões de forma, desfazendo-se gradualmente num estiolamento nebuloso ou se transferindo para o negrume da enorme chaminé, deixando atrás de si um intenso fedor. Era algo verdadeiramente horrendo, sobretudo devido ao que eu sabia a respeito do lugar. Recusando-me a fugir, eu o vigiava esmaecer – e enquanto vigiava eu sentia que aquela coisa estava também a me vigiar, cobiçosa, com olhos mais imagináveis que visíveis. Quando falei a respeito disso a meu tio, ele se interessou vivamente e depois de uma hora tensa de reflexão, chegou a uma decisão definida e drástica. Ponderando na mente a importância da questão e o significado de nossa relação com ela, ele insistiu em que nós dois experimentássemos – e, se possível, destruíssemos – o horror da casa mediante uma ou várias noites de vigília agressiva naquele porão bolorento e invadido (de fungos).

Continua...

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