07 novembro 2012

A casa abandonada (segunda parte)


H. P. Lovecraft

II

Só quando me fiz adulto foi que meu tio me deu a ler os apontamentos que ele havia coligido com relação à casa abandonada. O Dr. Whipple era um médico conservador da velha guarda, e apesar de todo seu interesse pelo lugar não estava disposto a incentivar o interesse dos jovens pelo ocultismo. Sua opinião pessoal, que postulava simplesmente um prédio e uma localização de acentuados predicados insalubres, nada tinha a ver com anormalidade; no entanto, ele sabia que se o pitoresco do caso era capaz de despertar seu próprio interesse, haveria de provocar toda sorte de medonhas associações imaginativas no espírito de uma criança.

O médico era celibatário. Um cavalheiro de cabeça branca, de barba raspada, e com reputação local de historiador, que havia freqüentemente terçado lanças com controversos guardiões da tradição, como Sidney S. Rider e Thomas W. Bicknell. Vivia com um criado numa casa georgiana com aldrava e degraus com cantoneiras de ferro, equilibrada lugubremente na subida íngreme da North Court Street, ao lado do antigo tribunal onde seu avô – um primo daquele famoso corsário, o Capitão Whipple, que incendiou a escuna armada Gaspee, de Sua Majestade, em 1772 – havia votado a 4 de maio de 1776 pela independência da colônia de Rhode Island. A seu redor, na biblioteca úmida, de lambris brancos e bolorentos, rebordo de lareira esculpido e janelas de vidraças pequenas, cobertas de hera, estavam as relíquias e as lembranças de sua família antiga, entre as quais havia numerosas alusões dúbias à casa abandonada da Benefit Street. Aquele sítio maléfico não fica longe, pois a Benefit Street corre bem sobre o tribunal, pela encosta da colina que constituiu o primeiro núcleo da cidade.

Quando, por fim, minha insistência e meu amadurecimento levaram meu tio a me franquear a história que eu buscava, vi-me diante de uma crônica estranhíssima.Embora parte dela fosse tortuosa e maçantemente genealógica, corria por todo o relato um fio contínuo de horror melancólico e tenaz, de malignidade sobrenatural, que me impressionaram ainda mais que ao bom doutor. Episódios separados se concatenavam de modo fantástico e pormenores na aparência irrelevantes encerravam minas de hediondas possibilidades. Cresceu em mim uma nova e ardente curiosidade, comparada à qual minha curiosidade infantil era débil e rudimentar. As primeiras revelações conduziram a uma pesquisa exaustiva e, finalmente, àquela investigação assustadora que se mostrou tão desastrosa para mim e os meus. Porque finalmente meu tio insistiu em participar da busca que eu havia iniciado, e depois de uma certa noite naquela casa não saiu dela comigo. Sinto-me só sem aquela alma gentil cujos longos anos só conheceram a honra, a virtude, o bom gosto, a benevolência e o saber. Fiz erguer em sua memória um monumento de mármore no cemitério da igreja de São João – o lugar que Poe tanto amou -, a alameda oculta de salgueiros gigantes na colina, onde túmulos e lápides se amontoam placidamente entre o vulto venerável da igreja e as casas e os muros da Benefit Street.

A história da casa, que se desvelou num emaranhado de datas, nada revelava de sinistro quanto à sua construção ou quanto à família próspera e honrada que a construiu. No entanto, desde o início evidenciou-se uma mácula de calamidade, que logo ganhou pressago significado. A crônica que meu tio compilara com tamanho cuidado começava com a edificação da estrutura, em 1763, e seguia o tema com uma invulgar cópia de minúcias. A casa abandonada, ao que parece, foi habitada primeiramente por William Harris e sua esposa, Rhoby Dexter, juntamente com seus filhos – Elkanah, nascida em 1755; Abigail, nascida em 1757. William jr., nascido em 1759. e Ruth, nascida em 1761. Harris era um abastado comerciante e lobo-do-mar, que se ocupava do comércio com as Índias Ocidentais, ligado à firma de Obadiah Brown e sobrinhos. Após a morte de Brown em 1761, a nova firma de Nicholas Brown & Co. fê-lo capitão do brigue Prudence, de 120 toneladas, construído em Providence, possibilitando-lhe assim construir a residência com que ele sonhara desde o casamento.

O local por ele escolhido – um trecho recentemente retificado da nova e elegante Back Street, que seguia pela encosta da colina sobre a congestionada parte da cidade que era chamada de Cheapside – nada deixava a desejar e a casa fez justiça à sua localização. Era melhor que recursos moderados poderiam custear e Harris apressou-se a mudar para ali antes do nascimento de um quinto filho. A criança, um menino, nasceu em dezembro; entretanto, nasceu morto. Aliás, criança alguma nasceria com vida naquela casa durante um século e meio.

No mês de abril seguinte, as crianças caíram doentes e Abigail e Ruth morreram antes de findar o mês. O Dr. Job Ives diagnosticou a enfermidade como sendo alguma febre infantil, conquanto outros declarassem que ela mais se assemelhava a uma consumição. De qualquer modo, parecia ser contagiosa, pois Hannah Bowen, uma criada, morreu acometida do mesmo mal em junho. Eli Lideason, o outro criado, queixava-se constantemente de fraqueza e teria regressado para a fazenda do pai em Rehoboth não fosse a súbita paixão por Mehitabel Pierce, que fora contratada em lugar de Hannah. Eli morreu no ano seguinte, na verdade um ano triste, pois assinalou a morte do próprio William Harris, que sucumbira ao clima da Martinica, onde sua profissão o mantivera durante períodos consideráveis na década anterior.

A viúva nunca se recobrou do choque causado pelo passamento do marido, e a morte de seu primogênito, Elkanah, dois anos depois, representou o golpe final para seu juízo. Em 1768 ela caiu vítima de uma forma branda de insanidade, ficando daí em diante confinada à parte superior da casa. Mercy Dexter, sua irmã mais velha, solteira, mudou-se para lá a fim de cuidar da família. Mercy era uma mulher simples e ossuda, de grande vigor, mas sua saúde declinou visivelmente desde que se mudou para a casa. Era extremamente devotada à sua infeliz irmã e nutria afeto especial por seu único sobrinho sobrevivente, William, que de criança robusta se transformara num rapazinho enfermiço e magro. Foi nesse ano que morreu a criada Mehitabel e que o outro serviçal, Preserved Smith, saiu sem explicação coerente, mas levando algumas histórias absurdas e a queixa de que não gostava do cheiro da casa. Durante algum tempo Mercy não conseguiu quem a auxiliasse, pois as sete mortes e o caso de loucura, tudo isso num espaço de cinco anos, haviam começado a atear, como fogueira, os boatos que viriam a tornar-se tão fantásticos. Por fim, entretanto, ela arranjou novos criados, fora da cidade – Ann White, uma mulher rabugenta daquela parte de North Kingstown que hoje constitui a cidade de Exeter, e um eficiente bostoniano de nome Zenas Low.

Foi Ann White quem primeiro deu forma definida ao sinistro falatório. Mercy devia ter pensado melhor antes de contratar alguém da região de Nooseneck Hill, pois aquele lugar atrasado era, como ainda é, fonte das mais desagradáveis superstições. Ainda em 1892 uma comunidade de Exeter exumou um cadáver e ritualisticamente queimou-lhe o coração, a fim de conjurar supostas aparições tidas como danosas à saúde e à paz públicas, e pode-se imaginar qual fosse o espírito dessa gente em 1768. A língua de Ann mostrava-se perniciosamente ativa e dentro de alguns meses Mercy a demitiu, substituindo-a por uma fiel e amável virago de Newport, Maria Robbins.

Entrementes, a infeliz Rhoby Harris manifestava, em sua loucura, os sonhos e fantasias mais delirantes. Às vezes seus gritos se tornavam insuportáveis e, por longos períodos, ela vociferava horrores que obrigavam a que o filho fosse morar temporariamente com o primo, Peleg Harris, no Caminho Presbiteriano, perto do novo edifício do colégio. O rapaz parecia melhorar de saúde após essas visitas, e fosse Mercy tão sensata quanto bem-intencionada, ela o deixaria morar em caráter permanente com Peleg. A tradição hesita em dizer exatamente o que a Sra. Harris bradava em suas crises de violência; ou melhor, os relatos são de tal modo extravagantes que se desmentem pelo puro absurdo. Decerto parecerá absurdo dizer que uma mulher que aprendera apenas os rudimentos do francês gritasse durante horas num rude dialeto daquela língua, ou que essa mesma pessoa, que vivia sozinha e protegida, se queixasse com desvario de uma coisa que a vigiava e a mordia. Em 1772 morreu o criado Zenas e quando a Sra. Harris ouviu a notícia gargalhou com um prazer chocante, inteiramente fora de seu feitio. No ano seguinte ela própria morreu e foi sepultada ao lado do marido no Cemitério do Norte. Ao rebentar a guerra com a Grã-Bretanha, em 1775, William Harris, a despeito de seus tenros dezesseis anos e de sua débil constituição, logrou alistar-se no Exército de Observação, sob o comando do general Greene; e a partir de então não deixaram de melhorar sua saúde e seu prestígio. Em 1780, servindo como capitão das forças de Rhode Island em Nova Jersey, sob o comando do coronel Angell, ele se casou com Phebe Hetfield, de Elizabethtown, levando-a para Providence ao dar baixa com honras no ano seguinte.

O retorno do jovem soldado não foi aureolado de total felicidade. A casa, é verdade, estava ainda em bom estado, e a rua fora alargada e tivera seu nome mudado, de Back Street para Benefit Street. No entanto, a compleição outrora robusta de Mercy Dexter havia sofrido um curioso e prostarante alquebramento, de modo que ela era agora uma figura derreada e patética, de voz cava e palidez desconcertante – atributos partilhados em grau singular pela única criada que restava, Maria. No outono de 1782 Phebe Harris deu à luz uma filha natimorta e no dia 15 do mês de maio seguinte, Mercy Dexter despediu-se de uma vida útil, austera e virtuosa.

Por fim convencido da natureza radicalmente insalubre de seu domicílio, William Harris tomou medidas para deixá-lo e fechá-lo para sempre. Tomando aposentos temporários para si e sua mulher na recém-inaugurada Pousada Golden Ball, ele providenciou a construção de uma nova casa, melhor, na Westminster Street, na parte da cidade que se desenvolvia do outro lado da Ponte Grande. Ali, em 1785, nasceu-lhe um filho, Dutee; e ali a família residiu até que as invasões do comércio fizeram com que atravessassem outra vez o rio e novamente transpusessem a colina, instalando-se na Angell Street, no bairro residencial mais novo de East Side, onde em 1876 o falecido Archer Harris construiu sua suntuosa, mas medonha mansão, em estilo francês. Tanto William como Phebe sucumbiram à epidemia de febre amarela de 1797, porém Dutee foi criado pelo primo Rathbone Harris, filho de Peleg.

Rathbone era homem de espírito prático e alugou; a casa de Benefit Street, a despeito do desejo de William de mantê-la vazia. Considerava obrigação sua aproveitar ao máximo todas as propriedades de seu tutelado e não se preocupava com as mortes e as moléstias, que causavam tantas mudanças de moradores, ou com a crescente aversão que em geral era votada a casa. É provável que ele tenha sentido apenas contrariedade quando, em 1804, o conselho municipal determinou-lhe que fumigasse a casa com enxofre, alcatrão e cânfora, devido às polêmicas mortes de quatro pessoas, presumivelmente causadas pela epidemia de febre amarela, que já então esmorecia. Diziam que a casa tinha um cheiro pestilento.

O próprio Dutee pouco pensava na casa, pois ao crescer tornou-se corsário e serviu com distinção no Vigilant, sob o comando do Capitão Cahoone, na guerra de 1812. Voltou ileso, casou-se em 1814 e tornou-se pai naquela memorável noite de 23 de setembro de 1815, quando um vendaval fez com que as águas da baía cobrissem meia cidade e empurrou pela Westminster Street uma chalupa alta, cujos mastros quase bateram nas janelas dos Harris, numa afirmação simbólica de que o menino, Welcome, era filho de marinheiro.

Welcome não sobreviveu ao pai, mas viveu o bastante para morrer com glória em Fredericksburg, no ano de 1862. Nem ele nem o filho Archer viam na casa abandonada outra coisa senão uma maçada, quase impossível de alugar, talvez devido ao bolor e ao cheiro doentio de velhice desleixada. Com efeito, ela nunca foi alugada após uma série de mortes que culminaram em 1861 e que a agitação da guerra tendeu a lançar no esquecimento. Carrington Harris, o último da linhagem masculina, só sabia dela como um foco de lendas, abandonado e com seu toque de pitoresco, até eu lhe contar minha experiência. Ele tivera a intenção de demoli-la e construir no terreno um edifício de apartamentos, porém depois de meu relato decidiu deixá-la como estava, instalar encanamento e alugá-la. Até hoje não tem tido dificuldades para conseguir locatários. O horror havia desaparecido.

Continua...

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