21 novembro 2012

A casa abandonada (quarta parte)

H. P. Lovecraft

IV

Numa quarta-feira, 25 de junho de 1919, após devidamente notificarmos Carrington Harris (mas sem fazermos referência ao que esperávamos encontrar), meu tio e eu levamos para a casa abandonada duas cadeiras de armar e um catre dobrável de acampamento, juntamente com alguns mecanismos científicos de maior peso e complexidade. Colocamos essas coisas no porão durante o dia, vedando as janelas com papel e planejando voltar à noite para nossa primeira vigília. Havíamos aferrolhado a porta entre o porão e o andar térreo; e como possuíamos uma chave da porta externa, podíamos deixar ali nosso dispendioso e delicado aparelhamento – que havíamos obtido em segredo e a elevado preço – tantos dias quantos fossem necessários. Era nossa intenção ficarmos de atalaia, juntos, até altas horas e depois vigiarmos até de madrugada, um de cada vez, em turnos de duas horas. Enquanto um de nós estivesse de alerta, o outro repousaria no catre.

O espírito de liderança natural com que meu tio obteve os instrumentos, nos laboratórios da Universidade Brown e no armeiro da Cranston Street, e com que instintivamente assumiu a direção de nosso empreendimento representou um maravilhoso comentário sobre a vitalidade c a resistência potenciais daquele homem de 81 anos. Elihu Whipple vivera segundo as leis higiênicas que pregava como médico, e não fosse o que sucedeu mais tarde ele ainda hoje estaria aqui, em pleno vigor. Só duas pessoas suspeitam do que aconteceu – Carrington Harris e eu. Tive de contar a Harris porque ele era o proprietário da casa e merecia saber o que havia saído de lá. Acresce que o havíamos avisado com antecedência a respeito de nossa investigação; e depois do desaparecimento de meu avô achei que ele me compreenderia e me ajudaria em algumas explicações públicas, de necessidade vital. Carrington ficou muito pálido, mas concordou em me auxiliar e decidiu que agora poderia alugar a casa com segurança. Dizer que não estávamos nervosos naquela noite chuvosa da vigília seria um exagero a um só tempo grosseiro e ridículo. Não éramos, como já disse, de maneira alguma infantilmente supersticiosos, mas o estudo científico e a reflexão nos haviam ensinado que o universo conhecido de três dimensões abarca uma fração ínfima de todo o cosmos de substância e energia. Naquela casa, um grande número de indícios, proveniente de numerosas fontes autênticas, apontava para a existência tenaz de certas forças de grande poder e, no que tange ao ponto de vista humano, excepcional malignidade. Declarar que verdadeiramente acreditávamos em vampiros ou lobisomens seria uma assertiva levianamente genérica. Mais correto seria dizer que não estávamos dispostos a negar a possibilidade de certas modificações desconhecidas e ainda não classificadas de força vital e matéria atenuada. Tais modificações se dariam com certa raridade no espaço tridimensional devido à ligação mais estreita desse espaço com outras unidades espaciais, mas ocorreriam suficientemente perto da fronteira de nosso espaço para nos proporcionar manifestações ocasionais que, por falta de um adequado ponto de observação, talvez nunca possamos vir a compreender.

Em suma, julgávamos, meu tio e eu, que um conjunto incontroverso de fatos apontavam para alguma influência persistente na casa abandonada. Essa influência podia ser atribuída a um ou outro dos rudes colonos franceses de dois séculos passados e ainda atuava através de leis desconhecidas de movimento atômico e eletrônico. O registro da história da família de Roulet parecia comprovar que ela possuíra uma afinidade anormal com círculos externos de entidade – domínios sombrios pelos quais a gente normal sente apenas repulsa e terror. Não seria de imaginar, então, que as rixas daqueles anos remotos da década de 1730 houvessem acionado algumas forças cinéticas no cérebro mórbido de um ou mais deles – principalmente no do sinistro Paul Roulet – que obscuramente haviam sobrevivido aos corpos assassinados e haviam continuado a atuar em algum espaço multidimensional segundo as linhas originais de força determinadas por um ódio desvairado contra a comunidade invasora?

Tal fato não constituía decerto uma impossibilidade física ou bioquímica à luz de uma nova ciência que inclui as teorias da relatividade e da ação intra-atômica. Podia-se facilmente imaginar um núcleo alienígena de substância ou energia, informe ou não, conservado vivo por meio de subtrações imperceptíveis ou imateriais da força vital ou dos tecidos e fluidos corporais de outros seres vivos, mais palpavelmente vivos, nos quais ele penetra e com cuja trama às vezes se funde completamente. Ele poderia ser ativamente hostil ou poderia obedecer tão-somente às cegas motivações da autoconservação. Em todo caso, tal monstro seria necessariamente, em nossa ordem de coisas, uma anomalia e uma intrusão, cuja extirpação constitui dever primacial de todo homem que não seja inimigo da vida, da saúde e da sanidade do mundo.

O que nos desconcertava era nossa inteira ignorância quanto ao aspecto que teria a coisa. Nenhuma pessoa sã jamais a vira; poucas a haviam sentido de maneira definida. Poderia ser energia pura – uma forma etérea e fora da esfera da substância – ou poderia ser parcialmente material; alguma massa desconhecida à equívoca de plasticidade, capaz de metamorfosear-se à vontade em aproximações nebulosas do estados sólido, líquido ou gasoso, ou mesmo em estados tenuemente instáveis. A mancha entropomórfica de bolor no chão, a forma do vapor amarelado e a curvatura das raízes de árvores de algumas histórias antigas, tudo isso atestava pelo menos uma conexão remota e reminiscente com a forma humana. No entanto, até que ponto essa similitude poderia ser representativa ou permanente, ninguém era capaz de afirmar com qualquer grau de segurança.

Havíamos imaginado duas armas com que travarmos combate: um tubo de Crookes, de grande dimensão e especialmente adaptado, operado por poderosos acumuladores e munido de telas e refletores, para o caso de a coisa se mostrar intangível e somente vulnerável a radiações vigorosamente destrutivas; e um par de lança-chamas militares, do tipo usado na Guerra Mundial, para o caso de ela ser parcialmente material e suscetível de destruição mecânica. Tal como os supersticiosos campônios de Exeter, estávamos dispostos a queimar o coração da entidade, se existisse algum coração a ser queimado. Dispusemos todo esse mecanismo agressivo no porão, em posições cuidadosamente calculadas com relação ao catre e às cadeiras e também ao ponto diante da lareira em que o bolor havia assumido formas estranhas. Aquela mancha sugestiva, a propósito, mal era visível quando instalamos os móveis e os instrumentos e ao voltarmos naquela noite para a vigília. Por um instante, quase duvidei de já tê-la visto na forma mais delineada… mas então lembrei-me das lendas.

Nossa vigília no porão teve início as dez da noite, hora de verão, e à medida que se desenrolava não víamos perspectiva de vir a ser frutífera. O brilho débil dos postes de iluminação pública, batidos pela chuva, e a ligeira fosforescência dos execráveis fungos deixavam entrever a pedra úmida das paredes, das quais haviam desaparecido todos os vestígios de caiação; o chão de terra dura, molhado, fétido e manchado de mofo, com seus fungos obscenos; os restos apodrecidos do que havia sido bancos, cadeiras e mesas, assim como outras peças de mobília mais despedaçados; as tábuas pesadas e os caibros robustos do piso do andar térreo; a decrépita porta de tábuas que se abria para desvãos e quartos, sob outras partes da cama; a esboroada escada de pedra, com seu arruinado corrimão de madeira; e a grosseira e cavernosa lareira de tijolos enegrecidos, onde enferrujados fragmentos de ferro revelavam a presença, no passado, de ganchos, cães de lareira, espeto, suporte de chaleira e um guarda-fogo para o caldeirão de cozer – todas essas coisas mais nosso catre e as cadeiras rudimentares, bem como o pesado e deletério instrumentar que havíamos trazido.

Tal como em minhas próprias explorações prévias, havíamos deixado destrancada a porta que dava para a rua, de modo que tivéssemos à disposição uma direta e prática rota de fuga, no caso de surgirem manifestações contra as quais estivéssemos inermes. Imaginávamos que nossa contínua presença noturna invocaria qualquer entidade maligna que ali se ocultasse; e ocorrendo isso, poderíamos dar-lhe fim com uma ou outra de nossas armas, tão logo a houvéssemos reconhecido e observado suficientemente. Não tínhamos nenhuma idéia do tempo necessário para invocar e extinguir a coisa; ocorria-nos, outrossim, que nossa aventura estava longe de segura, pois ninguém poderia dizer que força teria a entidade. No entanto, considerávamos que o risco valia a pena e nos atiramos a ele sozinhos e sem titubeio, conscientes de que buscar adjutório externo só nos exporia ao ridículo e talvez subvertesse todo nosso propósito. Tal era nosso estado de espírito enquanto conversávamos, bem adentrada a noite, até que a crescente sonolência de meu tio me fez lembrar-lhe que devia deitar-se para seu descanso de duas horas.

Algo semelhante ao medo me enregelou enquanto fiquei ali, de madrugada e sozinho. Digo sozinho porque quem vela o sono de alguém na realidade está sozinho.Talvez mais a sós do que pode perceber. Meu tio ressonava pesadamente, sendo suas profundas inalações e exalações acompanhadas pela chuva lá fora e pontuadas por outro som, enervante e distante, de águas que pingavam – pois se a casa era repulsivamente úmida mesmo em tempo seco, debaixo daquela tempestade parecia nada menos que um pântano. Eu estudava a alvenaria solta e antiga das paredes, à luz dos fungos e dos raios débeis que penetravam da rua, através das janelas enteladas; e em dado momento, quando a atmosfera nociva do lugar estava para me nausear, abri a porta e olhei para um lado e outro da rua, regulando meus olhos com coisas familiares e as narinas com o ar saudável. Nada ocorrera ainda que me recompensasse a vigília; e eu bocejava repetidamente, com a fadiga sobrepujando a apreensão.

O sono agitado de meu tio chamou-me então a atenção. Ele se havia virado inquietamente no catre várias vezes na segunda metade da primeira hora, mas agora respirava com invulgar regularidade, emitindo de vez em quando um suspiro que tinha muitas características de um gemido abafado. Dirigi para ele a luz de minha lanterna elétrica e encontrei seu rosto voltado de lado. Levantando-me e passando para o outro lado do catre, acendi novamente a luz para verificar se ele demonstrava algum sinal de dor. O que Vi deixou-me surpreendentemente nervoso, em vista de sua aparente trivialidade.Deve ter sido tão-somente a associação de uma circunstância singular com a natureza sinistra de nossa localização e de nossa missão, pois decerto a circunstância, em si mesma, nada tinha de assustadora ou antinatural. Ocorria apenas que a expressão facial de meu tio, perturbada sem dúvida pelos sonhos estranhos que nossa situação induzia, traía considerável agitação e não parecia de maneira alguma característica dele. Sua expressão habitual era de calma bondosa e cortês, ao passo que agora emoções variegadas pareciam lutar dentro dele. Creio, de modo geral, que terá sido sobretudo essa variedade que mais me perturbou. Enquanto arfava e se mexia, com crescente agitação e com olhos que começavam agora a se abrir, meu tio parecia ser não um, porém vários homens e deixava a impressão de uma curiosa alienação de si mesmo.

Imediatamente ele se pôs a resmungar, e não gostei do jeito de sua boca e de seus dentes enquanto ele falava. De início as palavras eram indistintas, mas logo – com um violento sobressalto – reconheci nelas alguma coisa que me encheu de gélido terror até lembrar a extensão da educação de meu tio e as intermináveis traduções que ele havia feito de artigos antropológicos e folclóricos da Revue des Deux Mondes. Pois o venerável Elihu Whipple estava resmungando em francês e as poucas frases que eu conseguia distinguir relacionavam-se aos mais sinistros mitos que ele já vertera da famosa revista parisiense.

De repente, bagas de suor começaram a se formar na testa do homem adormecido e ele sentou-se de um salto, meio desperto. A algaravia em francês transformou-se num grito em inglês e a voz roufenha bradou, excitada, “Minha respiração, minha respiração!” Ele despertou então inteiramente e, voltando a expressão facial ao estado normal, agarrou-me e começou a relatar um sonho cujo significado maior eu só podia conjecturar com uma espécie de pasmado terror.

Disse ele que havia passado, como que flutuando, de uma série de imagens oníricas bastante convencionais a uma cena cuja estranheza não podia ser relacionada a nada do que ele algum dia lera. Era deste mundo, e ao mesmo tempo não – uma irreal confusão geométrica da qual se podiam ver elementos de coisas familiares nas mais raras e perturbadoras combinações. Havia uma insinuação de imagens curiosamente desordenadas, superpostas umas às outras; um arranjo em que os dados essenciais, de tempo e de espaço, pareciam dissolvidos e misturados do modo mais ilógico. Nesse vórtice caleidoscópico de imagens fantasmais havia ocasionalmente instantâneos, se é válido utilizar a analogia fotográfica, de singular clareza, mas inexplicável heterogeneidade.

Em certo momento meu tio acreditou jazer numa cova aberta, descuidadamente escavada, com uma multidão de rostos coléricos, emoldurados por grenhas c chapéus de três bicos, que o olhavam de má catadura. Depois achou estar no interior de uma casa – uma casa antiga, aparentemente, mas os pormenores e os habitantes se modificavam constantemente, e ele jamais podia estar seguro quanto aos rostos ou ao mobiliário, ou mesmo quanto ao próprio cômodo, uma vez que as portas e as janelas pareciam num estado de fluxo tão intenso quanto os objetos presumivelmente mais móveis. Era esquisito – fantasticamente – e meu tio falou quase com humildade, como se de certa forma não esperasse que eu lhe desse crédito, quando declarou que dentre os rostos estranhos muitos apresentavam inconfundivelmente os traços da família Harris. E durante todo o tempo havia uma sensação pessoal de asfixia, como se alguma presença difusa se houvesse espalhado por seu corpo e tentasse apossar-se de seus processos vitais. Estremeci ao pensar nesses processos vitais, fatigado como estavam por oitenta e um anos de funcionamento contínuo, em conflito com forças desconhecidas das quais a organização mais jovem e mais robusta bem poderia ter medo; daí a um instante, porém, refleti que sonhos são sonhos e nada mais e que aquelas visões inconfortáveis poderiam ser, no máximo, apenas a reação de meu tio às investigações e às expectativas que ultimamente vinham excluindo tudo mais de nossos espíritos.

Também a conversa logo ajudou a dissipar minha sensação de singularidade. Daí a pouco eu próprio cedi aos bocejos e concluí que chegara minha vez de dormir. Meu tio parecia agora completamente desperto e acolheu bem seu período de vigília, muito embora o pesadelo o houvesse despertado muito antes de terminado seu tempo de repouso. Adormeci rapidamente e vi-me de imediato perseguido por sonhos muitíssimo perturbadores. Eu sentia, em minhas visões, uma solidão cósmica e abissal, com hostilidade assomando de todos os lados e se abatendo sobre a prisão em que eu me achava confinado. Eu parecia amarrado e amordaçado, agoniado pelos gritos ressoantes de multidões distantes, sedentas de meu sangue. Vi o rosto de meu tio, com associações menos agradáveis do que em horas de vigília, e recordo minhas inúteis tentativas e esforços para gritar. Não foi um sono agradável e nem por um segundo lamentei o grito retumbante que dilacerou as barreiras do sonho e me arremessou numa vigília vívida e sobressaltada, na qual todos os objetos diante de meus olhos adquiriram uma clareza e uma realidade supranatural.

Continua...

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