16 outubro 2012

Fruto proibido

fonte: oliandro brasil

A febre havia baixado, mas ainda tinha que ficar de repouso. Era sábado e seus irmãos brincavam no quintal, lá fora. Dava para ouvir os gritos e as risadas deles, enquanto corriam de um lado pro outro, brincando com Pirata, o cachorro velho de guerra deles.

Sabia que corriam, que brincavam no balanço e jogavam bola porque a tudo assistia da janela do quarto, que dava justamente para a parte detrás da casa.

Já era ruim ficar doente e tudo só ficava pior quando isso acontecia em dias como aquele, sábados ensolarados que, nesse caso, ainda era o último das férias de verão.

Seus irmãos também não colaboravam, com uma espécie de crueldade, característica inata às crianças, pareciam gritar mais, correr mais, comer muito mais besteiras e ainda debochavam dele, dizendo coisas como “que pena que Miguel tá doente”, “poxa, o Mi adora esse sorvete” e muitas outras, enquanto faziam caretas para o irmão, que a tudo assistia e ouvia da janela do quarto.

Miguel já estava cansado daquele quarto “penumbrento” e da temperatura sempre ambiente. Queria correr lá fora, com os pés no chão, sem camisa e na companhia de Pirata. Queria empinar pipa, a pipa vermelha que seu pai lhe dera e a qual ele havia empinado todos os outros dias das férias.

Foi quando, da janela do quarto, ele viu seu irmão mais novo, João, com a sua pipa em mãos. Os olhos de Miguel ficaram em carne viva e a temperatura de seu corpo subiu como um foguete, mas não era outro acesso de febre...

Assistiu resignado, depois de ter gritado por sua mãe, dito que não queria que João empinasse a sua pipa e tido como resposta que era para deixar de ser egoísta, que era só uma pipa.

Então, ao fazer um movimento errado, a linha se partiu e a pipa planou livre pelo céu. João deu um berro de aflição e olhou direto para a janela, onde Miguel a tudo assistia, mas seu pai disse que não tinha problema algum, era só uma pipa.

Desesperado por não perder a sua pipa, Miguel saiu correndo o mais silenciosa e sorrateiramente que pôde e ganhou a rua. Lá, do outro lado da rua, se enroscando como uma serpente, a pipa vermelha o chamava de cima de uma árvore.

Saiu correndo em sua direção sem olhar para o que fosse, a não ser pra ela, o fruto de seu desejo.

Um grito na rua. Um barulho de freio abrupto. Outro grito, no outro lado da rua. Uma pipa vermelha se desprendendo da árvore...

Então, ela despertou com um novo grito, um grito seu, como se, do nada, tivesse sido ligada no volume máximo de um amplificador de som. Estava ensopada, mas não de suor, e sim de sangue, sangue que não era seu.

Segurava uma faca de cozinha e tinha em seus braços lavados de encarnado, Miguel, a quem chamava agora baixinho “meu filhinho, meu filhinho...”

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