09 outubro 2012

Escrevo feito um possesso: como se me restassem horas de vida...

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[01] Escrevo feito um possesso: como se me restassem horas de vida e precisasse escrever um romance de trezentas páginas. Escrevo. Como um possesso. E no entretanto deixo minutos escaparem, quartos e quartos de hora. A preguiça acumplicia-se com o tempo e me devora, e contra eles preciso opor-me, levantar-me e mirá-los, e enfrentá-los, processando energias e revitalizando potencialidades que me vieram e enriqueci. Quando não escrevo sou um vice-morto, e as pernas atropelam-se na tentativa de imprimir velocidade às passadas. Um dia, alguém isso descobrirá, ou ninguém descobrirá e o trabalho terá sido vão. Se descobrirem captarão o frêmito epilético que pauta até mesmo o ato de respirar. Fecho os olhos e corro o mais rápido que posso para chegar exatamente aonde?

Para mim, inventar nunca foi uma calma tessitura de palavras hesitantemente juntadas a outras palavras, plácido trabalho, costura lentíssima, lentíssimo enfiar de linha nas agulhas, o estirar do tecido passando-se as mãos para desenrugá-lo. E levantar-me para beber sem pressa umas xícaras de chá. E os passeios pelas alamedas? Para que urgências, por que não começar amanhã a afiar os lápis, arrumar os papéis, pensar as palavras, a palavra inaugural, e qual será a palavra inaugural? A letra inaugural?, vogal, consoante, que consoante e que vogal? Me surpreendo irado ao perceber que  antes da primeira nota há pausas, um silêncio de anos, uma espera de anos, que a mim mesmo precede. A escrita começa pela paciência da espera e é tudo que me falta: paciência da espera. Nem uns bocados de paciência, que preciso amar a mulher que não sei onde para e sobre ela, sim, calmo e vagaroso serei, calmo, vaga|roso [02], poderei morrer até logo depois embora queira revê-la e reamá-la, apurando o recheio dos seus fêmures intermináveis, a bruna epiderme e a resignação com que suportará minhas exasperações, minha boca quase sempre calada. Aí, para que mais o consumir-se na possessão de pôr nevorsamente tudo, tudo, nos cadernos de almaço? Escrevo porque, Deus, preciso sem cessar estar buscando no infinito a partícula irreproduzida e minha. Não ambiciono mais que a minha partícula. Ela, onde me espera, expectante também? Então, percorrem-me raivas que reprocesso na palavra escrita. Eu. O tempo terminando-se. Ela que tarda, tarda.

E a maldição ou castigo deste eito cilício, que de mim mesmo depende acabá-los mas não acabo. E todos os dias a minha fiação repete-se, o acerar as agulhas, o empregar as linhas melhores, o pano grosso ou o tecido de seda. E o enfiar e o reenfiar a ferramenta com força e com ira, ou docemente em muito escassas vezes, fel e mel minando de mim, ódio e pequenos atos de amor, sussurro e berro. Eu, pecador, humílimo me confesso, humílimo, e arrogante sonego minhas avarezas, minhas invejas, minhas preguiças, minhas gulas, minhas iras, minhas luxúrias, minha soberba. Eu, pecador, por mim próprio premiado e punido, punido, punido, punido. Sou caudaloso e peco de águas, singularplural, pluralsingular, desconcertante que se desconcerta, imprevisto no dobrar sombrio da mais distante estrada, déspota e oprimido, lancinante e torvo, esquvo, solto, cativo, nativo de um chão de húmus. Abcdefghijklmnopqrstuvxyz, as peças todas do meu puzzle, e mais cedilhas, vírgulas, acentos gravíssimos, agudos. E as pausas. As pausas. O não conseguir preencher vazios. O não conseguir preencher vazios. Ah se, ah se, ah se.

MARANHÃO, Haroldo. Senhoras & Senhores. – Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989. p. 01-02.

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