24 outubro 2012

Benzinho


Foi acordado por um forte cheiro de flores, que invadira sua mente como uma droga alucinógena, que ao invés de lhe turvar os sentidos, os deixava mais aguçados, alerta.

Estava no meio da rua em que morava, carregava um saco de pães num braço e, na mão do outro, uma sacola com um pacote de leite; estava de pijamas e não se lembrava de como havia parado ali. 

Na verdade, a única coisa que conseguia se lembrar era de ter dormido, logo após sua mulher ter lhe dito “Durma bem, benzinho” e, agora, ele estava de pijamas, no meio da rua, com pães e leite, fora o cheiro forte de flores em suas narinas, e nada disso conseguia explicar para si mesmo.

Incomodado com essa sensação de não saber o que estava acontecendo, seguiu pela rua, agora andando pela calçada, até a sua casa, que ele notou ter certo movimento em sua frente, o que lhe incomodou ainda mais. Afinal de contas, por que havia tantos carros e gente bem vestida na entrada de sua casa, em pleno domingo de manhã?

Foi entrando e tentando não esbarrar nas pessoas, apenas pedindo desculpas pelos trajes e licença ao passar, coisa que ninguém pareceu notar. E, foi percebendo que as pessoas bem vestidas trajavam preto, tinham a aparência grave, triste e convergiam para a sala de estar, como um rio seguindo em direção ao mar.

Seguiu a corrente e uma forte angústia começou a invadi-lo, fazendo-o suar, a boca secar e as pernas bambearem. Olhava de um lado a outro como uma criança que decide contrariar os pais, ver um filme de terror à noite e depois não consegue sair da cama para ir ao banheiro ou beber água, como se, a qualquer momento, um monstro ou assassino pudesse pular em seu pescoço.

Quando chegou ao meio da sala, as pessoas pareceram se afastar naturalmente da sua frente, lhe possibilitando ver uma mulher usando um vestido que lhe parecia uma segunda pele, tão justo estava em suas carnes. Ela estava com o rosto encoberto, mas ele sabia que era o benzinho dela e que ela chorava por ele, mas ainda não entendia bem o porquê. Tudo estava tão fantasmático.

Chegou mais perto dela e sentiu o cheiro de flores mais forte, pútrido e mortal, embora não houvesse coroas delas, no funeral. Ela olhava para um caixão e, nele, encontrava-se deitado – rijo, com os braços cruzados sobre o peito, algodões nas narinas e a pele acinzentada – o seu corpo. Ela olhava para o caixão, não com os olhos cheios de lágrimas que teriam lhe borrado a maquiagem, mas com olhos ainda maquiados, que brilhavam de malícia, de animal refestelado com a caça recém abatida.

Então, como em um filme que é rebobinado, várias imagens voltaram em ordem inversa a sua mente e dançaram violentamente sobre seus olhos.

Sua mulher sobre ele, esfaqueando-o.

Ela lhe dizendo “durma bem, benzinho”, enquanto ele virava-se para o lado...

Foi acordado por um forte cheiro de flores, pútrido e sufocante, que invadira sua mente, como uma droga alucinógena que, ao invés de lhe turvar os sentidos, os deixava mais aguçados, alerta. Mas essa sensação logo o deixou. Tudo fora um sonho... Fora?

O cheiro nauseabundo e asfixiante de flores continuava e sua mulher lhe dizia “durma bem, ben...”

Não. Não era isso que ela lhe dizia, era outra coisa. Ela lhe dizia “descanse em paz, benzinho”, com uma voz roufenha, rindo debochadamente, mostrando os caninos e molares muito brancos, recortados contra o céu vermelho da boca, quando ela jogava a cabeça para trás, ao esfaqueá-lo. 

“Descanse em paz, benzinho”, era o que ela repetia descontroladamente ao desferir de modo ininterrupto os golpes de faca, contra o peito dele.

2 comentários:

  1. Caramba, acho que esse foi um dos textos que mais gostei :)
    Parabéns Dan! Bjo

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  2. Você tinha me mandado antes ou eu estou tendo um déjà vu?

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Ronrone à vontade.