31 outubro 2012

A Casa Abandonada (primeira parte)


H. P. Lovecraft

I

Até mesmo dos horrores supremos raramente a ironia está ausente. Às vezes ela participa diretamente da composição dos acontecimentos; outras vezes só se refere à posição fortuita desses acontecimentos entre pessoas e lugares. O último caso é ilustrado, de maneira esplêndida, por um episódio ocorrido na antiga cidade de Providence, onde, nos últimos anos da década de 1840 Edgard Allan Poe costumava se hospedar com freqüência, durante a malograda corte que fez a Sra. Whitman, a talentosa poetisa. Em geral Poe ficava na Mansion House, em Benefit Street – hoje rebatizada como Pousada Golden Ball, cujo teto abrigou Washington, Jefferson e Lafayette -, e seu p asseio predileto consista em caminhar na direção do norte, pela mesma rua, até a residência da Sra. Whitman e o cemitério da igreja de São João, numa colina próxima. As lápides do século XVIII exerciam sobre ele um fascínio peculiar.

Ora, a ironia está em que, nesse passeio tantas vezes repetido, o maior mestre do terrível e do fantástico em todo o mundo era obrigado a passar por uma certa casa do lado leste da rua; era uma construção antiquada e caindo aos pedaços, pendurada numa ladeira que subia bruscamente, com um enorme quintal abandonado, que datava do tempo em que a região era quase desabitada. Ao que parece, ele nunca escreveu ou falou sobre ela, nem há qualquer indicação de que algum dia a tenha notado. No entanto, para duas pessoas possuidoras de determinadas informações, aquela casa iguala ou supera, em horror, a mais delirante fantasia do gênio que tão amiúde passava por ela inadvertidamente, e se ergue, olhando de soslaio para os passantes, símbolo de tudo quanto é indizivelmente tétrico.

A casa pertencia (e, aliás, pertence ainda) àquela espécie destinada a atrair a atenção dos curiosos. Construída em estilo rural, ou semi-rural, obedecia ao risco médio do estilo colonia1 da Nova Inglaterra – o teto pontiagudo que indicava prosperidade, com dois andares e sótão sem água-furtada, o portal georgiano e o interior de 1ambris, ditado pelo gosto da época. Dava para o sul, com uma empena chegando às janelas inferiores na colina de leste, e a outra exposta para os alicerces, na direção da rua. Sua construção, que datava de mais de século e meio, havia acompanhado o aclive e o endireitamento da rua naquele local; isto porque a Benefit Street – de início denominada Back Street – dispunha-se como uma viela que serpenteava entre os túmulos dos primeiros colonizadores e só for a retificada quando a remoção dos restos mortais para o Cemitério do Norte tornou-lhe decentemente possível cortar os velhos jazigos de família.

No passado, a parede de oeste se erguia a partir de um relvado íngreme, a cerca de seis metros da rua. Entretanto, a alargamento desta, mais ou menos ao tempo, da Revolução, amputou a maior parte do espaço interveniente, expondo as fundações, de modo que foi necessário edificar um muro de tijolos, dando ao alto porão um alinhamento com a rua, ficando a porta e duas janelas sobre o solo, perto da nova linha de servidão pública. Quando foi construída a calçada, há um século, removeu-se o que restava do espaço interveniente. E em seus passeios Poe deve ter visto apenas uma parede vertical de sujos tijolos cinzentos, rentes à calçada e encimada, a uma altura de três metros, pela casa propriamente dita, de antiquados enxaméis.

O terreno da casa, 1embrando uma fazenda, estendia-se colina acima, chegando quase a Wheaton Street. O espaço ao sul da casa, limítrofe com a Benefit Street, ficava naturalmente muito acima do nível da calçada, formando um terraço limitado por uma alta murada da pedra úmida e musgosa, interrompida por um íngreme lance de degraus estreitos que levavam, entre paredes altas como canyons, à área superior de relva mirrada, úmidas paredes de tijolos e jardins desmazelados, cujas derribadas urnas de cimento, enferrujadas chaleiras caídas de tripés de varas nodosas e objetos semelhantes adornavam a porta da frente, castigada pelo tempo, com sua clarabóia quebrada, suas apodrecidas colunas jônicas e seu carunchoso frontão triangular.

O que ouvi na juventude a respeito da casa abandonada foi somente que as pessoas morriam ali em quantidade alarmante. Foi por isso, disseram-me, que os primeiros proprietários haviam-se mudado, cerca de vinte anos depois de a terem construído. A casa era evidentemente insalubre, talvez por causa da umidade e dos fungos do porão, do cheiro doentio, das correntes de ar nos corredores ou da qualidade da água do poço. Tais características eram bastante más e eram tudo quanto gozava de crédito entre as pessoas que eu conhecia. Só os apontamentos de meu tio, o Dr. Elihu Whipple, revelaram-me por fim as conjecturas mais sinistras e mais vagas que alimentavam as crenças de velhos empregados e de pessoas mais humildes, conjecturas que nunca chegaram muito longe e que foram em grande parte esquecidas quando Providence cresceu e se converteu em metrópole moderna, com uma sempre renovada população.

O fato é que a casa nunca foi considerada pela parte respeitável da comunidade como sendo “mal-assombrada” em qualquer sentido real. Não havia histórias de correntes arrastadas, lufadas de ar frio, luzes que se apagavam ou rostos que assomavam em janelas. Às vezes os mais exagerados diziam que a casa “dava azar”, mas não passavam disso. O que era realmente incontestável era que um número assustador de pessoas morria ali; ou, mais exatamente, haviam morrido ali, uma vez que, depois de certos episódios peculiares, havia mais de sessenta anos, o prédio tinha ficado abandonado, por pura impossibilidade de alugá-lo. Essas pessoas não tinham sido, de modo algum, abatidas subitamente por alguma causa única. Ao invés disso, era como se sua vitalidade fosse insidiosamente solapada, de modo que cada qual falecia mais cedo, em virtude de qualquer tendência à debilidade que lhe fosse natural. E aqueles que não morriam exibiam, em grau variado, um tipo de anemia ou consumição, e às vezes um declínio das faculdades mentais, que depunham contra a salubridade da moradia. As casas vizinhas, convêm acrescentar, pareciam inteiramente isentas desse atributo nocivo.

Isso era tudo que eu sabia antes que minhas insistentes indagações levassem meu tio a me mostrar os apontamentos que finalmente nos conduziu a nossa medonha investigação. Em minha meninice a casa abandonada já estava vazia, com suas terríveis árvores secas e retorcidas, seu mato crescido e estranhamente pálido, suas ervas absurdamente malformadas no quintal alto nunca visitado por pássaros. Os meninos, eu entre eles, costumávamos invadir a casa, e ainda me lembro de meu terror infantil provocado não só pela estranheza mórbida dessa vegetação sinistra, como também pela atmosfera e o odor mefítico da casa dilapidada, por cuja porta, sem tranca, costumávamos entrar à procura de calafrios. Quase todas as janelas, de pequeninas vidraças, estavam quebradas e um clima sombrio de desolação pairava em torno dos lambris precários, das venezianas destroçadas, do papel de parede solto, do reboco, das escadas rangentes e dos restos de mobília desmantelada. A poeira e as teias de aranhas acrescentavam seu toque de medo, e valente era a criança que voluntariamente subia a escada do sótão, um vasto espaço encaibrado, iluminado apenas por pequenas janelas sujas nas empenas, tomado pelos restos empilhados de baús, cadeiras e rocas que anos infinitos de abandono haviam amortalhado e decorado com teias de aranha, dando-lhes formas monstruosas e infernais.

No entanto, o sótão não era a parte mais terrível da casa. Era o porão único que, por algum motivo, mais repulsa nos causava, muito embora ficasse inteiramente acima do solo, do lado da rua, separado da calçada movimentada apenas por uma porta delgada e por uma parede de tijolos com janelas. Não sabíamos se mais desejávamos inspecioná-lo, tomados de fascinação espectral, ou evitá-lo, por amor às nossas almas e a nosso juízo.Para começar, o mau-cheiro da casa era mais intenso ali; além disso, tínhamos aversão pelos fungos brancos que de vez em quando brotavam do chão de terra dura durante as chuvas de verão. Tais fungos, grotescamente semelhantes à vegetação do quintal lá fora, tinham contornos verdadeiramente horríveis; eram execráveis paródias de chapéus-de-cobra e monótropas, diferentes de tudo quanto já tínhamos visto. Apodreciam rapidamente e em certo estágio tornavam-se ligeiramente fosforescentes, pelo que transeuntes noturnos às vezes faziam referência a fogueiras de bruxas por trás das vidraças quebradas das janelas, que exalavam fedor nauseabundo.

Jamais – nem em nossas mais animadas noites de Halloween – visitávamos aquele porão à noite, mas em algumas de nossas visitas diurnas podíamos detectar a fosforescência, principalmente quando o dia era escuro e úmido. Havia ainda uma coisa mais sutil, que muitas vezes supúnhamos detectar – uma coisa estranhíssima que era, entretanto, no máximo sugestiva. Refiro-me a uma espécie de desenho esbranquiçado no chão sujo – um depósito vago e cambiante de bolor ou mofo, que às vezes acreditávamos ver no meio dos fungos esparsos perto da imensa lareira da cozinha do porão. Às vezes tínhamos a impressão de que aquele trecho mostrava uma fantástica semelhança com uma figura humana dobrada em dois, ainda que em geral não houvesse essa identificação e muitas vezes não existisse nenhum depósito esbranquiçado. Numa certa tarde chuvosa em que essa ilusão pareceu fenomenalmente forte e em que, além disso, imaginei ter entrevisto uma espécie de exalação rala, amarelada e tremeluzente subindo do desenho nitroso na direção à boca da lareira, falei com meu tio a respeito. Ele sorriu, mas era como se seu sorriso estivesse matizado por reminiscências. Mais tarde vim a saber que uma impressão semelhante fazia parte de algumas das fantasiosas histórias antigas da gente comum – uma impressão que também aludia a formas fantasmais e lupinas assumidas pela fumaça da grande chaminé e a contornos singulares tomadas por algumas das sinuosas raízes que, passando pelas pedras soltas das fundações, acabavam entrando no porão.

Continua...

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