07 setembro 2012

Eva e Diego

Mas nesse dia, olhando aquela ausência imensa, irregular e feia como a extração de um molar, fui incapaz de recordar sequer quantos andares tinha o edifício desaparecido, de que cor que era a fachada, que lojas havia (se havia) no térreo, se tinha varandas, se estendiam roupa, se lá viviam espanhóis ou sul-americanos ou fantasmas sem pátria; se tinha me apoiado alguma vez em suas paredes para ajeitar os sapatos de salto; se Diego alguma vez tinha incluído esse edifício numa conversa sobre alguma coisa ou alguém; se quando chovia, esse edifício, santo Deus, pelo menos se molhava.

Assim que cheguei em casa perguntei a ele. Diego, viu o edifício que retiraram? O que havia ali antes? Lembra? Diego não lembrava. Como não consegue lembrar? Como não consigo lembrar?

A vida está tapada.

Esse edifício, esse não edifício - se não me lembrava dele, também não podia garantir cabalmente que alguma vez o vi, que alguma vez eu e o edifício nos fitamos nos olhos -, esse terreno baldio agora, esse não baldio quando levantarem um novo edifício a ser nos olhado nos olhos para, algum dia, em minha velhice, descobrir que já não estava lá, que tinha sido retirado também, que um novo terreno baldio - o mesmo terreno baldio? - olhava para mim com seus olhos vazios, esse edifício, esse não edifício foi, sem dúvida, o que me trouxe até aqui.

À construção desse vazio.

E pensei: não será esse edifício, o novo, o que levantarão em poucos meses, depois que o terreno baldio tiver se enchido de lixo e cocô de cachorro e seringa de drogados e de merda de todo tipo e de pichações, aquele que não será retirado um dia, aquele que permanecerá, aquele que, definitivamente, deixará de me ver passar diante dele para comprar o jornal ou ocupar um banco verde repintado outras nove vezes? Não será ele, o edifício, aquele que será incapaz de recordar sequer que olhei para ele centenas de vezes nos olhos e fiquei ali plantada, vestida de alguma maneira, com uma bolsa ou sem bolsa nenhuma, mas viva?

Sou um terreno baldio.

[...]

O edifício desapareceu e eu não consegui me lembrar do edifício. Agora havia um terreno baldio ali, um baldio que, num tempo muito breve, seria tapado por outro edifício, do mesmo modo como minhas horas de aeróbica aos sábados foram imediatamente tapadas por minhas horas de alemão; e não recordava o edifício da mesma maneira como não sou capaz e recordar minhas horas de aeróbica nem minhas horas de alemão nem minhas horas de idiomas absurdos: só um nome para sua ausência.

Mas em minha memória não há terrenos baldios. Nesse pugilato de ideias, nessa relação entre edifícios e lazer aos sábados, não há baldios. O baldio seria aquele momento em que estava esperando por algo novo para encher minhas horas livres. Mas recordar esse momento é impossível, como se não estivéssemos preparados para nos debruçar sobre um abismo aberto na própria rotina.

Não recordamos quando não fazemos nada. Não recordamos o tédio. Não aparece nos mapas.

É mais fácil recordar um edifício do que um terreno baldio. O edifício é arquitetura, alguém pensou um ordem e uma forma e tratou de dispô-las, em certo sentido para serem recordadas; o baldio é vazio arbitrário, está ali momentaneamente e ninguém quer, em princípio, que ele seja lembrado ou sequer levado em conta.

Mas, do mesmo como um edifício tem varandas, fios, um telhado de duas águas, padieiras e gerânios, um terreno baldio tem escombros e mato e resíduos e detritos e bichinhos e buracos e quem sabe sabe até as varetas de um guarda-chuva. Quer dizer, deveríamos poder lembrá-lo.

Deveríamos poder rememorar o tédio, não só como um tempo mais ou menos longo e desesperante em que tivemos a impressão de que nada fora de nós mesmos reclamava convincentemente a nossa presença e concurso, e no qual, se permanecíamos atentos a nós mesmos (até o pontos de poder diagnosticar que estávamos entediados), isso se devia ao fato de que não podemos nos deixar à margem quando não nos divertimos; deveríamos recordar o tédio em detalhes, como recordamos o roteiro de um filme, mesmo que seja, precisamente, um tédio.

[...]

O tédio não tem adjetivos. Mas tem forma verbal: entediar. "Eu me entedio", "você me entedia". (Não posso esquecer essa frase que minha mãe me dizia tantas vezes quando eu era menina - já me entediava desde criança: "Deixe de fastio, senhorita.") "Eu me entedio" soa como "eu me faço mal"; "você me entedia" soa como "você me faz mal". No entanto, muitas vezes desejei ficar sozinha e até comentei diretamente: "Vou ficar em casa e chafurdar no tédio." E efetivamente me entediava, porque queria fazer isso comigo mesma, esse mal.

Porque um terreno baldio às vezes reclama seu espaço.

OLMOS, Alberto. Eva e Diego. Granta, 7: jovens escritores em espanhol. v.7 Tradução Eliana Aguiar... [et al.]. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p. 83-96.

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