05 agosto 2012

O começo da humanidade¹

Ilustração Luana Geiger

Não existia gente no mundo, apenas um homem chamado Toba com sua mulher. Plantavam macaxeira, milho, batatas, banana, mamão.

Fora a roça deles, tudo era natureza, sem plantação alguma.

Eram só os dois sozinhos. Nem sequer bichos havia; só a cutia e o nambu-relógio.

Toba debulhava o milho e fazia os montinhos.

Um dia, viu que a colheita estava desaparecendo. Imaginando que o ladrão podia ser a cutia, se não fosse a tanajura ou a saúva, fez uma tocaia para espreita-la, bem de madrugada.

Em vez de cutia, viu que era gente, debaixo da terra, que esticava a mão por um buraco para roubar seu milho. Toba conseguia ouvir conversas no subterrâneo, pessoas brigando por quem poria primeiro a mão para surripiar o milho.

A saída do mundo subterrâneo era um buraco tampado por uma rocha pesadíssima.

Toba fez força e conseguiu levantá-la para as pessoas saírem; mas tinha que ficar segurando o peso imenso, apressando o povo enquanto sustentava a rocha.

As pessoas foram saindo. Tinham mãos de pato, com os dedos grudados. Eram horrendas, diferentes das de hoje, com chifres, queixos protuberantes, narizes compridos e dentes aguçados, salientes. Iam saindo com todos os seus pertences, cestas, colares, arcos e flechas. Vinham fazendo barulho, brigando para ficar cada uma com mais milho que a outra.

Toba não queria que saísse a semente dos que não são índios, dos que são chamados “brancos”².

Quando aprecia homem ou mulher que não era índio querendo sair, Toba empurrava de volta para o buraco.

O pessoal começou a demorar muito para sair.

Havia uma mulher linda que, ao chegar a saída, lembrou que deixara a peneira lá embaixo; voltou para buscar. Todos a chamavam, mas nada dela aparecer.

Se tivesse saído, as pessoas hoje seriam lindíssimas, mas demorou tanto que Toba não aguentou mais segurar a rocha.

Toba foi ficando bravo, pois a semente dos “brancos” (um homem e uma mulher) conseguiu sair, mas a mulher linda acabou ficando lá dentro.

Toba pôs a rocha no lugar e fez banco e esteira para as pessoas sentarem. Começou então a consertá-las e separá-las em povos diferentes. Cortou os chifres, rabos, serrou os pés de pato.

Era uma operação demorada, e cada vez que o sol estava quase se pondo, Toba puxava-o para cima outra vez, para que não escurecesse logo, para poder ter um dia mais comprido.

Quando ajeitou tudo, Toba ensinou cantigas aos homens:

- Quem vai ser cantor? De que povo?

Os homens respondiam e escolhiam. Cada povo tinha sua cantiga e sua língua, e ficou assim.

Os Tupari aprenderam por último; Toba ralhava quando erravam. A cantiga começava assim:

Tamairiran, tamairiran

A semente do “branco” ficou para trás.

O índio ficou sendo o dono da terra, porque saiu primeiro.

O “branco” saiu por último; Toba queria que ele tivesse ficado lá embaixo.

Toba espalhou os povos dos índios por todos os cantos, aumentando a terra e o mato para todos caberem.

¹Narrador: Konkuat Tupari, 1989, narrativa registrada por Betty Mindlin.

²Branco: termo usado em muitas regiões para se referir a quem não é índio. Sempre entre aspas por ser palavra preconceituosa, nem todos os que não são índios são brancos, e todos nós temos muita mistura de origens.

MINDLIN, Betty. O primeiro homem e outros mitos dos índios brasileiros. Ilustração Luana Geiger. 2.ed. – São Paulo: Cosac Naify, 2001. p. 13-17.

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