07 agosto 2012

Novíssimo Proteu


Para Antonio Medina Rodrigues

Der Hoellische Proteus
Fonte: Desmancha no ar
Encardido enigma,
nebulosa,
envelope vazio,
a primeira pessoa busca a divina perdição para si.
Eu, por exemplo, inteiramente perdido,
passei a confiar só em mim
e sou a pessoa menos digna de fidúcia
porque não sou uno, monolítico, inteiriço.
Uma cega labareda me guia
para onde a poesia em pane me chamusca.
Pensei ter pisado solo firme
quando descobri
no texto, What is Zen, de D. T. Suzuki
que a palvra inglesa “elusive”
poderia solidamente me definir de uma vez por todas.
Qual o quê.
Vou onde poesia e fogo se amalgamam.
Sou volátil, diáfano, evasivo.

Espesso dicionário de sinônimos?
Espesso dicionário de antônimos?

Escorregadio que nem baba de quiabo.
Escapo que nem dorso de golfinho
que deixa a mão humana abanando
sem agarrar nada.

Arquimedes, quando em mim confio,
em que ponto me apoio?
Arquimedes, em que fio de prumo me baseio
para sagrar o trigo
e separá-lo do trivial joio?

Éter puro e leve e cru.
Um poço sem fundo.
Uma deriva sem rumo.
Uma meada sem fio.
Um fio sem prumo.
Uma balança sem fiel.
Um horizonte sem linha.
Uma linha sem horizonte.
Um nó que se desfaz.
Um pulo da ponte.
Um sem arrimo nem pé nem cabeça.
Um caso sem cura.
Um canário, um curió, na muda.
Um cenário que muda de figura.
A chama da metamorfose me captura.

Eu, um sabedor de que os pronomes pessoais
não passam de variáveis em uma equação.
Raspa de tacho sem tacho nem tampa.
Plenipotenciário de um eu sem eu.

Espesso dicionário de antônimos.
Espesso dicionário de sinônimos.
Espesso dicionário de antônimos.

SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. – Rio de Janeiro: Rocco, 2001. pp. 97-8.

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