28 agosto 2012

Memórias dos tempos de ditadura...

fonte da imagem: mosintour

Naquelas semanas de ócio não era preciso saber se era quarta, quinta ou domingo. Toda tarde, conformado com a solidão, eu saía para bater perna, como se diz: caminhava experimentando trajetos cada vez mais longos, apesar de quase sempre respeitar certa geometria circular. Estudava traçados, quadras, anotando novas paisagens, ainda que o mundo não variasse demais: as mesmas casas novas, construídas de repente, como que atendendo a uma urgência, no entanto sólidas, resistentes. Em poucas semanas a maioria das paredes havia sido restaurada e reforçada. Era difícil desconfiar que acabava de ocorrer um terremoto.

Hoje não entendo bem aquela liberdade. Vivíamos numa ditadura, falava-se de crimes e atentados, de estado de sítio e toque de recolher, e apesar disso nada me impedia de passar o dia vagando longe de casa. As ruas de Maipú não eram perigosas na época? À noite sim e durante o dia também, mas os adultos, com arrogância ou inocência, ou com um misto de arrogância e inocência, brincavam de ignorar o perigo: faziam de conta que o descontentamento era coisa de pobre, e o poder, assunto de rico, e ninguém era pobre nem era rico, pelo menos ainda não, naquelas ruas, naquela época.

ZAMBRA, Alejandro. Jeitos de voltar para casa. In: Granta, 7: jovens escritores em espanhol. v.7 Tradução Eliana Aguiar... [et al.]. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p. 298.

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