01 agosto 2012

Henry James sobre a Crítica e o Crítico.

A Arte da Ficção, de Henry James
[41] Se se pode dizer que a crítica literária floresce entre nós agora, certamente ela floresce em grande escala, pois flui pela imprensa como um rio que rompeu os diques. Sua quantidade é prodigiosa, e é uma mercadoria que, por maior que seja a demanda estimada, o suprimento por certo jamais será o suficiente. [...] A imprensa é uma vasta boca aberta que tem de ser periodicamente alimentada – um vaso de enorme capacidade [42] que tem de ser preenchido. [...] [43] A vulgaridade, a brutalidade, a estupidez que essa apreciada combinação entre a resenha de segunda mão e nosso maravilhoso sistema de publicidade colocou em tão alta escala pode ser representada, com tal espírito, como uma invenção sem precedentes em favor do enfraquecimento da troca de ideias. [...] O caso é, portanto, reconhecer com desalento que estamos pagando um preço tremendo pela difusão das [44] oportunidades para o profissional das letras; que a multiplicação de contribuições para o palavrório pode ser tão fatal quanto uma doença infecciosa; que a literatura vive essencialmente, nas sagradas profundidades do ser, do exemplo, da luta pela perfeição; que, como outros organismos sensíveis, ela é altamente suscetível de desmoralização, e que nada é mais bem calculado do que a pedagogia irresponsável para fechar-lhe a boca e os ouvidos. Torná-la pueril e superficial é retirar dela ar e luz, e a consequência de ela persistir em má companhia é a total perda de sua essência.

[...] Publicam centenas de livros que não são nem sequer anunciados, e no entanto existem lá muito mais fabricantes de livros que aqui [se referindo a quantidade de livros publicados na França, em relação a Inglaterra]. É sabido que [45] tais volumes nada têm a dizer ao senso crítico, que não pertencem à literatura, e que a posse de um senso crítico é justamente o que torna impossível lê-los e estéril discuti-los – e os coloca, como parte da experiência crítica, fora de questão. [...] O senso crítico está tão longe de ser frequente que é absolutamente raro, e a posse do arsenal de qualidades que ele exige é uma das mais altas distinções. É um dom inestimavelmente precioso e bonito; portanto, afora o fato de que se ele passa demais de mão em mão, sabe-se que basta ficar durante uma hora observando-o para ver que ele é feito com a moeda mais barata. Temos professorzinhos demais; no entanto, não só afirmo na literatura a alta utilidade da crítica, mas também me sinto tentado a dizer que a parte que ela representa talvez seja a mais benéfica quando ela vai às profundezas, combinando eficientemente experiência e percepção.

[...] [47] A [vocação] do crítico, na literatura, é duplamente ligada [à vida], porque lida com a vida em segunda mão assim como em primeira; ou seja, ele lida com a experiência dos outros, que traduz para a sua própria, e não com aquelas outras inventadas e selecionadas com as quais o romancista se põe em termos confortáveis, mas com o intransigente exame de autores, as ruidosas crianças da história. Ele tem de fazê-las tão vívidas e livres quanto o romancista faz seus bonecos, e no entanto ele tem, como e diz, de toma-las como elas são.

* Os colchetes com números dentro referem-se as páginas, de onde o trecho se encontra no livro; os com reticências indicam que há algo escrito entre os trechos, e que foi suprimido e os com termos, procuram resolver algum problema de entendimento, haja vista serem recortes de um texto.

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução Daniel Piza. – Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011. pp. 41-7.


Quem tiver interesse em ter esse trecho, pode baixa-lo aqui, em formato .pdf.

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