25 agosto 2012

Church

Fonte: Álbum de fotos do Literatortura

Os gatos vivem perigosamente e com frequência têm mortes trágicas, em geral antes de suas próprias expectativas de vida. Ali estava Church, cochilando ao sol (ou, pelo menos, parecia). Church que toda noite dormia pacificamente na cama de sua filha, Church que fora tão engraçadinho quando filhote, que certa vez ficou todo emaranhado num novelo de lã. E, no entanto, Louis já o vira atacar de surpresa um pássaro com a asa quebrada, os olhos verdes brilhando de curiosidade e – sim, ele seria capaz de jurar – frio prazer. Raramente Church matava o que conseguia pegar, mas tinha havido uma importante exceção, um rato grande, provavelmente apanhado na viela entre o prédio onde moravam e o prédio vizinho. Ele realmente preparava o ataque àquele rato. Ao vê-lo junto do rato e com o focinho salpicado de sangue, Rachel, há seis meses grávida de Gage, teve de correr até o banheiro para vomitar. Vidas violentas, mortes violentas. Podem ser atacados e dilacerados por um cachorro, visto que nem todos são como os cães desajeitados e idiotas dos desenhos animados; podem também ser mortos por gatos mais fortes, por uma isca envenenada ou atropelados por um carro. Os gatos são os gângsteres do mundo animal, vivendo fora da lei e frequentemente morrendo por causa disso. Era muito grande o número dos que não envelheciam ao pé da lareira.

Mas talvez aquilo não fosse coisa para contar à filha de 5 anos, uma menina que pela primeira vez encarava a verdade sobre a morte.

KING, Stephen. O cemitério. Tradução de Mário Molina. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p. 71.

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