24 agosto 2012

Baudelaire sobre Poe: O poeta.

Fonte da imagem: Ideias de Jeca-tatu

[18]Genus irritabile vatum!* Que os poetas (vamos utilizar a palavra em seu sentido mais extenso, compreendendo todos os artistas) sejam uma raça irritável é bem sabido; mas o porquê não me parece tão claro. O artista não é artista senão por sua compreensão refinada do belo, o que lhe proporciona deleites inebriantes, mas, ao mesmo tempo, implica uma compreensão igualmente refinada de toa deformidade e desproporção. Portanto, um erro, uma injustiça contra um poeta o exaspera de tal maneira que pode parecer, ao julgamento comum, em completa disparidade em relação à injustiça cometida. Os poetas nunca veem injustiça onde não existe, mas, na maioria das vezes, onde os olhos não poéticos são incapazes de vê-la. Dessa forma, a irritabilidade poética não tem relação com o temperamento, entendido em sua acepção vulgar, mas com uma clarividência além do normal relativa à falsidade e à injustiça. Tal clarividência nada mais é que um corolário da percepção viva do real e da justiça, da proporção, para empregar uma palavra relacionada ao belo. Mas há uma coisa muito clara, o homem que não é (ao julgamento comum) irritabilis não é, de forma alguma, poeta.”

*Latim: “Raça irritável dos vates”.

BAUDELAIRE, Charles. Prefácio: Outras anotações sobre Edgar Poe. In: POE, Edgar Allan. Contos de imaginação e mistério. Ilustrações de Harry Clarke; prefácio de Charles Baudelaire; tradução de Cássio de Arantes Leite. -- São Paulo: Tordesilhas, 2012. p. 18.


Quem quiser o prefácio na íntegra, pode baixá-lo AQUI.

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