17 julho 2012

O foco narrativo/narrador na prosa moderna.

Daniel Prestes

O foco narrativo se desenvolve a partir de um ‘alguém’ que narra uma estória e a ‘posição’ que este mantém em relação ao que é narrado e com as outras personagens, sendo assim, de acordo com Leite (1994), ao abordar a tipologia proposta por Norman Friedman, as narrativas podem apresentar os seguintes narradores: a) narrador onisciente intruso; b) narrador onisciente neutro; c) “eu” como testemunha; d) narrador-protagonista; e)onisciência seletiva múltipla; f) onisciência seletiva; g) modo dramático e, por fim, h) modo câmera.

Cada modo de narrar apresentará perspectivas diferenciadas do que é narrado, assim, por exemplo, o narrador onisciente intruso evidenciará não só tudo o que acontece, como também os pensamentos e desejos das personagens, além de tecer comentários acerca essas coisas. O mesmo não se dará com o narrador-protagonista, que nos será mais limitado, tendo em vista que ele falará apenas das coisas que viveu e sentiu. Já o modo dramático, não se deterá nas questões psicológicas das personagens, pois se concentra na ação desenvolvida.

Relógios Moles, Salvador Dalí
No romance moderno, verifica-se que a estória narrada não se limita mais a essas perspectivas, de um alguém em algum lugar fixo, de onde a narrativa passa a ser contada. Essa mudança no jeito de contar faz com que ou o narrador ou o espaço-tempo sejam sublimados, ocasionando o que Rosenfeld (1996) denominou de “desrealização”, ou seja, a relativização das personagens/heróis e do tempo-espaço.

Essa alteração na realização da prosaística (entendida aqui como “arte de escrever em prosa”), na modernidade, possibilita o surgimento de prosas que apresentam uma quebra na sequência lógica dos fatos, havendo assim, uma quebra na linearidade temporal, um imbricamento dos tempos (presente, passado e futuro), que o local de onde se narra torne-se indefinido, podendo ser mesmo a consciência da personagem, o que “mata” o narrador, originando assim o que se denominou “fluxo de consciência”, que tem em “Ulisses”, de Joyce, o seu ápice e radicalização no modo de ser usado.

Tais elementos narrativos também mexem com o enredo da trama, que deixa de ser algo definido, podendo vir a ser um conjunto de situações – sobrepostas, superpostas e aglutinadas; cotidianas.

Além de “Ulisses”, acima referido, percebem-se em “Orlando”, de Virgínia Woolf, e em “Caim”, de Saramago, elementos comuns da prosaística moderna.

Em “Orlando”, a estória contada, embora não em fluxo de consciência, e sim por um narrador onisciente intruso, na maior parte do romance, o faz de sobremaneira que vamos vivendo a vida de Orlando através das suas relações com as suas próprias percepções, sempre tão divergentes que, ao fim, não sabemos precisar quem ele é e, se a estória lida trata-se, de fato, da sua ou da Inglaterra, ou mesmo sobre o modo de escrever literariamente.

Relógio mole, Salvador Dalí
No que se refere a “Caim”, o que ocorre é a quebra na linearidade temporal, tal qual é conhecida na Bíblia. Caim passeia por eventos, indo ora para o passado, ora para o futuro, como um recurso de evidenciar a face concebida de Deus, por Saramago e pela própria personagem, que nomeia o romance, Caim.

Tais recursos composicionais evidenciam o mundo impreciso, descontínuo no qual vivemos, causando quase sempre um estranhamento ao perceber tal fragmentação, tão exposta que fica nos textos literários, ao contrário da precisão e linearidade verificada nos romances pré-modernismo, como os “realistas”.

Referências

LEITE, L. C. O foco narrativo: a polêmica em torno da ilusão. 7 ed. – São Paulo: Ática, 1994. p. 25-70.
ROSENFELD, A. Texto/Contexto I. 5 ed. – São Paulo: Perspectiva, 1996. P. 75-97.

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