31 julho 2012

Henry James sobre a Arte da Ficção

A Arte da Ficção, de Henry James
[16] “Arte”, nas nossas comunidades protestantes, em que tantas coisas mudaram tão estranhamente, imagina-se em certos círculos que tenha algum efeito vagamente injurioso sobre aqueles que a consideram, que dão certo peso a ela. Supõe-se que ela se oponha, de alguma maneira misteriosa, à moralidade, ao lazer, à educação. Quando está incorporada numa pintura (escultura é outro assunto!) sabe-se o que ela é: ela está lá diante de você, na honestidade do rosa e do verde e uma moldura dourada; você pode ver a parte pior dela de relance e ainda se manter protegido. Mas quando ela se introduz na literatura se [17] torna mais insidiosa – há o perigo de que ela o machuque antes de você conhece-la. A literatura deveria ser ou instrutiva ou divertida, e há em muitas cabeças a impressão de que essas preocupações artísticas, como a busca da forma, não contribuem em nenhum dos dois sentidos, e mesmo interfere em ambos. São muito frívolas para ser edificantes e muito sérias para ser divertidas; e, além disso, são pretensiosas e paradoxais e supérfluas. Isso, creio, representa a maneira como o pensamento latente de muitas pessoas que leem romances como um exercício fugaz poderia explicar a si mesmo se fosse articulado. Elas argumentariam, claro, que um romance tem de ser “bom”, mas interpretariam este termo à sua maneira, o que certamente iria variar bastante entre um crítico e outro. Alguém diria que ser bom significa representar personagens virtuosos ou inspiradores, situados em oposições proeminentes; outros diriam que isso depende de um “final feliz”, uma distribuição final dos prêmios, pensões, maridos, mulheres, bebês, milhões, parágrafos anexos e observações divertidas. Outro, ainda, diria que ser bom significa ser repleto de incidentes e movimento, de modo que ele queira saltar adiante, para ver quem era o misterioso estranho e se o objeto roubado foi encontrado, e de modo que ele não seja desviado desse prazer por alguma análise ou “descrição”. Mas todos concordariam que a ideia “artística” traria uma perda para seu entretenimento. Um a associaria com a descrição, outro a veria revelada na ausência de simpatia. Sua hostilidade a um final feliz seria evidente, e em alguns casos até faria qualquer conclusão ser impossível. A “conclusão” do romance é, para muitas pessoas, como a de um bom [18] jantar, uma sequência de sobremesas e sorvetes, e o artista na ficção é visto como uma espécie de um médico chato que proíbe prazeres supérfluos. É portanto verdadeiro que essa concepção do Sr. Besant do romance com uma forma superior encontra uma indiferença não só negativa mas também positiva. Pouco importa à essência da obra de arte que supra finais felizes, personagens simpáticos e um tom objetivo, como se fosse uma obra mecânica: a associação de ideias, embora incongruentes, poderia ser demais para ela se uma voz eloquente às vezes não se erguesse para chamar atenção para o fato de que a ficção é um ramo da literatura a um tempo tão livre e sério quanto qualquer outro. 

[...] Deve-se admitir que bons romances são bastante comprometidos por maus, e que o campo como um todo sofre descrédito quando superpovoado. Acho, no entanto, que essa injúria é apenas superficial, e que a superabundância de ficção nada prova contra o princípio em si. Ela foi vulgarizada, como todos os outros tipos de literatura, como tudo o mais hoje em dia, e provou mais do que os outros tipos ser acessível à vulgarização. Mas há tanta diferença quanto sempre houve entre um bom romance e um mau: o mau romance é varrido com todas as telas borradas e mármores danificados em direção a um limbo não visitado, ou para o infinito depósito de lixo atrás das janelas do mundo, e o bom romance subsiste e emite sua luz e [19] estimula nosso desejo por perfeição. [...] A única obrigação que devemos imputar previamente a um romance, sem cair na acusação de arbitrariedade, é a de que seja interessante. 

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução Daniel Piza. – Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011. pp. 16-9.


Quem tiver interesse em ter esse trecho, pode baixa-lo aqui, em formato .pdf.

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