28 julho 2012

Bonsai – A arte da jardinagem ficcional

Por Daniel Prestes


Bonsai é o primeiro romance do chileno Alejandro Zambra, que foi um dos eleitos pela revista britânica Granta, como um dos vinte e dois melhores escritores hispano-americanos.

O processo de composição de Bonsai parece ser o mesmo usado para criar a planta homônima, que é o de cortar e podar, até a história tomar a forma que deve ter, para ser o que é em sua completude.

Um texto conciso, que foca no essencial da história, como constantemente nos é lembrado pelo narrador, que por parecer onisciente, tem a liberdade de escolher o que e como os fatos serão contados, sempre em diálogo direto com o leitor, como numa conversa.

Essa estratégia dá uma fluidez ainda maior a narrativa, haja vista que o leitor não se sente como tal, mas sim como uma personagem. Somos então transformados em personagens de uma conversa acerca fatos já acontecidos, quando a história começa, tudo já é passado.

Emília morreu. Julio continua vivo.

Saber disso não mata a história, pois o importante não é saber o final, que já nos é dado logo de início, mas sim como se chegou a isso. Como diz Emílio Fraia, na orelha de capa do romance, essa é uma história de amor, sobre o seu fim e a constatação disso.

Bonsái (2011)
Fonte da imagem: Festival de Cannes

E essa história de amor é como um bonsai (a segunda analogia que pode ser feita com o título da obra), que “é uma réplica artística de uma árvore em miniatura. Consta de dois elementos: a árvore viva e o recipiente. Os dois elementos têm de estar em harmonia e a seleção do vaso apropriado para uma árvore é, por si só, quase uma forma de arte. [...] Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo” (última capa).

Rapidamente aprenderam a ler os mesmos livros, a pensar parecido e a disfarçar as diferenças. Logo moldaram uma vaidosa intimidade. Ao menos naquela época, Julio e Emília conseguiram se fundir numa espécie de vulto (p.23).

Só que, em dado momento, quando leem o conto “Tantalia”, de Macedonio Fernández, eles tomam consciência do fim. O conto narra a história de um casal que resolve criar uma plantinha, como símbolo do amor que nutrem um pelo outro. Contudo, percebem que, quando a planta morrer, significará a morte desse amor. Logo, utilizam de uma estratégia, por a plantinha em meio a outras iguais, assim nunca precisariam saber que o amor morreu, mas isso também não resolve, pois se o amor não morreu, se perdeu entre a multidão.

A análoga a essa situação é o ritual que eles criam, de ler algo antes de treparem (termo que eles preferem usar, ao falar das suas relações sexuais), que logo lhes fica claro ser a plantinha que eles cultivam. Para que nada mais pudesse assalta-los de forma incomoda, como o fez “Tantalia”, eles decidem por só lerem os clássicos. Mas isso não muda o fato deles terem tomado a consciência do fim.

O fim vem com o 'retorno' do começo. O fim vem com Proust.

E “uma vez fora do vaso, a árvore deixa de ser um bonsai” (última capa).

Então Emília morre, e numa paródia da cena célebre em que Emma roda a cidade de Paris, dentro de uma carruagem de cortinas cerradas, enquanto trepa com seu amante, Julio adentra um táxi e roda, sozinho, pelas ruas da cidade do Chile.

Alías, poderíamos considerar que, essa é mais uma analogia com Bonsai, uma árvore que, com a ajuda de elemento externos vai tomando a forma que deve ter. Assim também é a narrativa, que com a ajuda de outros romances, vai se construindo, não apenas como citações ou exemplificações das situações dadas, mas como fio condutor e, até mais, como coadjuvantes, personagens dessa história de amor.

O livro em 2011 foi adaptado para o cinema pelo diretor Cristián Jiménez, e participou da seleção Um certain regard, do Festival de Cannes naquele ano.



Assista o trailer:


ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. Tradução Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Um comentário:

  1. Olá, Dan!
    Gostei muito do livro Bonsai; como te falei, não sabia que tinha um filme! Apesar de ter gostado do trailer, me é estranho materializar esses personagens e essa história. Isso porque os livros que já li do Zambra me passam uma sensação de efemeridade; o que ele conta, já passou e se esvaiu, como névoa! Não sei explicar direito, mas tive essa impressão em Bonsai e em A vida privada das árvores.
    Gostei da resenha, Zambra é realmente encantador! E obrigada pelo trailer também!
    Abraços,
    Natasha

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