14 dezembro 2013

Flanêrie auto[e]motiva*



Voltar à noite pra casa, depois de um dia de aula, sempre foi mais do que apenas 'voltar para casa'.

De noite, é quando eu mais gosto da cidade. É quando, iluminada e arejada, ela se abre em imagens, ora apressadas, ora lentas, - cheias de contrastes do belo e feio, do passado e do presente, do luxo e da miséria, pela janela do ônibus, em um trajeto que não deve durar muito mais que vinte minutos.

Foto: Ingrid Bico Link da Imagem: G1 Pará
As primeiras imagens que chamam minha atenção, ao descer toda a José Malcher, são as pessoas, que mais parecem vultos humanizados, nas paradas parcamente iluminadas, pelas quais o ônibus passa ligeiro.

Vultos cansados da longa jornada de trabalho e/ou estudo, casais curtindo os beijos apaixonados (com olhos atentos para não perderem ônibus). São pais, mães, irmãos, maridos, esposas e, mesmo, ninguéns.

Num piscar de olhos e no virar de uma curva, adentramos a Assis de Vasconcelos, de onde vemos, fugazmente, o Grande Teatro descansando em paz, envolto de árvores e coretos de luz republicana, como que recém-saído da Belle Époque

Contrastando com esse idílio, surge-me em mais uma curva rápida, no Boulevard Castilho França, a Estação das Do[ndo]cas, soberbamente iluminada, com suas lojas, restaurantes; uma ‘pequena cidade de lux[o]’ de frente para o rio.

Ao lado, o primo Ver-O-Peso, da feira, das ervas e banhos, do peixe com açaí e tanta gente e tanta coisa, de noite, iluminado e quase vazio de gente. É belo. É belo como a cor laranja dos uniformes dos garis que varrem, do laranja das lixeiras que guardam as esperanças e sonhos espalhados no dia. Nem piscamos os olhos, já em frente ao Mercado de Ferro, estamos. 

Ajeitando-se em papelões, pescadores, caminhoneiros e outros tipos esperam, próximo à Praça do Relógio, o dia que vem, para vender o peixe e ganhar o pão, enquanto espero, junto com o impaciente motorista, o sinal abrir. Mas não se engane, que o tempo deles não é ditado pelo relógio e nem pelo semáforo. 

O tempo deles é outro. O tempo que importa é o da maré.

Logo à frente, assistindo a todo esse espetáculo humano, eleva-se o Palácio Azul do Rei. Rei?!  Sr. Prefeito Fulano de Tal, que nada vê. Uma floresta encantada o separa do mundo.

Dezesseis de Novembro. 

Tamandaré e o seu rio de gente. 

Na Gama Abreu, judiciário e religioso face a face. A igrejinha está iluminada. É dia de missa, Sr.?!

Já na avenida da fé, tão mais antiga que as mangueiras centenárias que a ladeia, sob os olhos amorosos de DEIPARAE VIRGINI A NAZARETH, um mar de gente sobe nos coletivos, em procissão, pagando as promessas nossas de cada dia. E, a cada nova parada, o ônibus que era praticamente só meu, vai enchendo e as imagens vão se acabando em borrões escuros.

E é de frente para o grande Mercado de São Brás, que o meu cansaço pede uma dose de sono e, como em todas as noites, depois dessas e de tantas outras visagens, eu adormeço no assento duro do ônibus lotado e sonho com a grande cobra, que adormecida no subsolo, circunda Belém.

SILVA, Daniel Prestes da. Flanêrie auto[e]motiva. In: III Prêmio PROEX/UFPA de Literatura - Antologia: poesias, crônicas e contos. Belém, 2013. pp. 93-4.

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