02 junho 2012

A dama indigna


Cida Moreira, no Show A Dama Indigna,
que aconteceu no Sesc Boulevard de Belém,
no dia 1º de junho de 2012.

-- Foto de Daniel Prestes

(Marcelo Marcus Fonseca para Cida Moreira)

Diziam que ela cantava.
Mas não era da boca
O som que eu ouvia
Não era sol que surgia
Não era a voz que encantava.
Ela dizia que era ridícula
Isso eu posso dizer por mim,
Eu atesto e dou fé,
Porque gostar de Brecht até
Se entende,
Mas gostar de mim?
Juro que não conheço
Uma pessoa tão ridícula assim!
Diziam que era cantora
Mas eu só via a pessoa.
Ela tinha uma música
Que vinha das mãos
Não porque os dedos
Rebatiam fortes nas teclas
Do piano recheado de lembranças
Sem espaço no canto
Para mentir pro coração,
Coração que trocou de lugar
E eu via na ponta dos dedos!
Diziam que sua voz cortava.
Nem isso...
Sua voz navegava
E naufragava em uma estrutura
Diferente do mundo macroscópio.
Mas as mãos regiam.
Mas não como a orquestra,
Ela parecia reger o palpável
Grossamente amável
Com cretinos como ela
Que se olhavam no espelho
Enquanto mentiam.
Acho que era moça, acho
Acho que era velha, acho que era puta,
Mas acho que mesmo puta
Era donzela.
Às vezes, parecia o vento
Segurando uma espada,
Às vezes, um mar furioso,
Ou um Palácio da Esplanada,
Às vezes, não parecia nada.
Diziam que era bem humorada.
Quem disse?
Diziam que não valia nada
Como um cachorro do mato,
E só por força da rima,
Me digam quem disse,
Porque esse, eu mato!
Mas era cretina,
Perpétua, Ardilosa
Que obrigava a rimar quem não tinha rima,
De uma astúcia cruelmente generosa.
Diziam que ela tinha seus sonhos
Mas sempre foi muito cautelosa.
Talvez porque não sonhasse
Acordada como eu. Mas eu só
sonho acordado porque sou ateu.
Mas diziam, diziam...
Todos sempre dizem.
E como disse Ataulfo Alves,
"A maldade nessa gente é uma arte."
Por isso diziam. E é o aspecto mais complicado:
Se ainda dizem, não mais escuto
E finjo, muito surdo, e delicado,
Porque diziam e eu não escutei no passado.
Essa safada
Tem rimas imperfeitas,
Graças a Deus!
Senão onde mais eu encontraria
Uma voz que canta pelos
Olhos dos outros,
Que não sai dela,
Dando a impressão que seus cantos são meus?

Um comentário:

Ronrone à vontade.