14 dezembro 2013

Além-mar*


Fonte: Netserv19

“Vamos, vovô Hans! Vamos brincar lá embaixo, na praia. Por favor! Deixe de olhar pela janela e vamos lá embaixo.” 
  
Essa era você, Sophia. Você em seus, recém-feitos, cinco anos. Você em toda a sua ansiosa vontade de correr por essas areias brancas e se jogar nas águas geladas e salgadas desse mar. E aquele era eu, mirando da minha janela, manhãs edênicas. Eram em manhãs como esta – sempre foram em manhãs como esta e sempre haverá de ser em manhãs como esta –, céu cristalino de mar, quando a areia fica mais branca e plumosa e o atlântico me perde no horizonte, que eu lembrava-me e cismava aqui do alto deste farol, sob os carinhos adocicados da morna brisa, ainda, com tudo o que passei. Tudo o que não havíamos sido e o que hoje sei que nós éramos. Contemplava o mar, que imenso cabia naquela janela, com olhos de mil navios zarpados, pois, para mim, ele significava o caminho de casa e era – sou e serei eu –, em todas as lágrimas dele não publicadas em versos. Em manhãs assim, dançando, balançando, avançando e recuando em minha frente, surgia ele em meus pensamentos, enorme, desmedido em costas largas, com seu amplo abraço de sempre-eterno, que, pesadamente, envolvia-me com seu aspecto sempre fulvo, tal qual um coral, e um sorriso enorme, com dentes brancos reluzentes. E eu me recordava que, naquela época, mesmo com tal proximidade que tínhamos, percebia-o distante. É que me parecia que havia nele um mistério. Era algo tão incompreensível para mim, e, no entanto, eu o queria, sem medo de perder-me. E perdi-me. Em bailados e harmonias tecidos por aquela mítica figura, perdi-me. Sozinho e endoidecido caminhei em meu labirinto, no interior de palácios veementes e vermelhos, sucessivos e roucos. Aproximei meu rosto do silêncio e cortejei a sussurrada treva de paixões e traições inchadas de gritos; em busca de um dia limpo. Em busca dele. Saído desse labirinto, pensando ter encontrado o meu tão almejado Príncipe dos Lírios, perdi-me novamente. Zarpei... Era em coisas assim, querida, que eu pensava, enquanto você clamava pela liberdade da praia e eu me rapunzeava. Muitos anos se passaram, você cresceu e o oceano aumentou as distâncias entre eu e ele, criando um isolamento, um mundo indecifrável como a força nua do primeiro dia criado. Desde então, desde isso, que ele tenha morrido é ainda uma notícia desencontrada e longínqua e não a entendo bem, pois é como se fosse uma nau, que chega naufragada ao seu cais. E que seja isso, não poderia desejar despedida, essas coisas nunca nos pareceram necessárias. Nem quando, de fato, eram. Palavras. Seriam apenas palavras aladas, faladas não para ficar, mas, encantadas, voar. Entre nós, tantos outros gestos foram mais consistentes, do que qualquer jura de amor, do que qualquer soneto de amor camoniano. Então, eu entendi que, agora, não haveria retorno para mim. Eu jamais regressaria para eles, nunca havíamo-nos pertencido, não como eu havia sido dele. E em noites esvaziadas de luar, iluminadas apenas pelas brincantes estrelas – pirilampos de eterna luz, Via-Láctea, que guiam os meus pensamentos, ao sussurrarem-me palavras de carinho. Guiam-no a mim. Farol. Por conta disso, ele permanece presente como um reino e atravessa sempre meus sonhos como afluentes de um rio, parece-se com a casa da minha primeira vida: primeiro estive nela e, depois que ela perdi, passou a morar-me. Era assim que eu olhava o seu tão desejado mar, Sophia, aquele no qual você queria se lançar, por que ele sempre me cuidava, porque eu o guardava. Hoje, olhar o mar é mais do que ver o caminho de volta para casa ou quem em mim mora. É, também, mirar o meu lar e em quem eu passei a morar, com todas as minhas lembranças, de quem todos nós fomos e as de quem viremos a ser, neste além-mar, tão aquém de mim.


*Este texto é uma reescritura da carta "De Hans à Sophia A.", do mesmo autor.

SILVA, Daniel Prestes da. Além-mar. In: III Prêmio PROEX/UFPA de Literatura - Antologia: poesias, crônicas e contos. Belém, 2013. pp. 157-9.

Um comentário:

  1. Simplesmente belíssimo!!! Gostei demais Daniel!
    Esse teu texto me tocou! Parabéns!

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