05 abril 2012

Sobre Poesia, Antonios e Guardados.* **

Silviano Santiago

1. Uma fórmula simples para guardar a poesia de Antonio Cícero? Está no poema "Dita". A poesia é dita. Dita: particípio passado do verbo dizer. Dita: fartura, destino. Dita: casa de detenção. Eis a fórmula simples: dizer o destino do homem na casa de detenção da poesia. Ali se guardam todas as palavras, as dele e as alheias, até mesmo as cantigas que construíram Babel ("Confusão") e que, depois, se perderam, repetida e incansavelmente, no labirinto de "Minos".

2. Cultivar a poesia de Antonio Cícero é dar eco ao verso: "no fundo de mim/ sou sem fundo". Não há o que buscar na dita do poema, ou seja, entre os guardados do poeta. Há sempre o que colher. "Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la." Como não há o que buscar e, sim, o que colher, a voz do poeta que ecoa é perversamente a voz de quem a escuta. A palavra poética é fratura exposta; está exposta à visitação dos olhos de Narciso, como uma radiografia do (próprio) coração, um mapa das (próprias) emoções ou um (impróprio) cadáver.

[...]

4. O gesto que recolhe as palavras é o mesmo que as oferece. Tudo se passa a dois, e por isso, a figura da reciprocidade domina o universo amoroso da poesia. Do ut des (Dou, para que dês) - é a máxima do "Hotel Meio-dia". No solo da paixão, a via láctea jorra no alto do firmamento e aos pés do poeta. Ser o amante sem ser o amado. Ser dois e ser o elo: "Entre ar, mar, céu, nome, ser, não ser Marcelo."

*Título dado por ocasião dessa publicação. Esse texto não possui título.
** Esse texto é sobre a poesia de Cícero, porém, em determinados aspectos, podem ser aplicados a poesia em geral.

SANTIAGO,  Silviano. Orelha de capa. In: CÍCERO, Antonio. Guardar: poemas escolhidos. - Rio de Janeiro: Record, 1996.

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