01 março 2012

O Sapateiro - parte primeira

AVISO: 
 Encare essa história como ficção, pois é isso que ela é. 
O Autor não compartilha e tão pouco faz apologia aos atos aqui narrados.


Fonte: Hilanna, Eva
Corria descalço naqueles paralelepípedos irregulares de pedra sabão, que pavimentavam o cais do porto daquela vila pesqueira. Era final de tarde e aves pesqueiras sobrevoavam ora o mar ciano, ora os montes de cordas e barcos presos aos trapiches, enquanto o céu, cingido pelo sangue de febo, crepusculava.

Já passara da hora de voltar para casa, ele sabia disso, mas queria aproveitar aqueles últimos momentos, antes de partir, de tornar-se aprendiz de sapateiro. Então, deixou-se ficar até a lua despontar alta no céu, em meio ao cortejo das estrelas lácteas.

Acordou cedo no dia seguinte, e mesmo assim não fora o bastante, pois quando sentava-se a mesa para comer um naco seco de pão com manteiga de garrafa e tomar o seu copo de leite, o sapateiro chegou.

O sapateiro lhe pareceu enorme e, em sua enormidade vestia um macacão de um tecido grosso e azulado, com uma camisa encardida de mangas cumpridas por baixo, botinas nos pés gigantes. Completava-lhe a figura um chapéu na cabeça, óculos e barba e cabelos já grisalhos. Seu nome era Joaquim, que num sorriso, que queria ser simpático e amigável, perguntou pelo menino Benjamim.

Benji deu uma mordida no seu pedaço de pão e bebeu seu leite em um gole, e saiu correndo, pés descalços, até a porta de entrada daquela que fora seu lar por nove anos, desde o seu nascimento, com uma trouxinha de roupas nas costas.

Despediu-se de sua velha avó, que lhe deu sua benção e recomendou que fosse sempre obediente e que Seu Joaquim era um bom homem, que lhe ensinaria uma profissão da qual se orgulhar. Seguiram viagem em uma carroça puxada por um velho burro atravessando, por meio de uma estrada de chão vermelho batido, uma grande campina verde.

Era final da tarde, quando chegaram à casa do sapateiro - uma edificação de três cômodos, um banheiro com uma tina, outro que servia de quarto, sala e cozinha e o último a oficina, onde ele fazia e consertava os sapatos das pessoas da região – Seu Joaquim mostrou a Benjamim uma pequena cômoda onde ele deveria guardar as suas roupas e o pequeno colchão, onde ele dormiria e o mandou ao banho . A viagem lhe deixara encardido, devido à poeira da estrada, tanto que nem se percebia mais a sua pele louçã.

Enquanto o menino banhava-se, o sapateiro preparava uma sopa de miúdos de frango para almoçarem. E, enquanto preparava a refeição, ficava de olho para ver se o menino estava mesmo tomando banho ou apenas brincando na tina de água. Foi em um desses momentos em que ele viu algo que o paralisou.

Continua...

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