06 março 2012

À la mémoire de la mémoire

passado o tempo a memória
fica mais forte que os dois
braços. torna-se o órgão mais viçoso.
nenhum outro músculo ainda se desdobra
como os dela fazem para alcançar
o que os olhos perderam na viagem.
dentro em pouco a memória
é o que resta, e o que nós
temos de tudo o que era,
e não é mais, é ela quem consola.
até mentir, para nós, mente a memória
se para completar uma alegria ou uma glória,
mas o faz com verdade rara. e se às vezes
ela se cala, cala-se como aos poetas
as palavras se calam na última hora.
e nada lembro, nada, que a degenere.
este livro, por exemplo,
está escrito na memória
antes mesmo que se gere

VIEIRA, Paulo. Orquídeas anarquistas. - Belém: IAP, 2007. p. 11

Um comentário:

Ronrone à vontade.