16 fevereiro 2012

ಕ್ರಿಯಾಪದ Kriyāpada*




Por Vinícius de Souza

A Daniel Prestes


Quão íntegra é a folha última sem seu livro-mãe? Quem é capaz de suportar o torpor de ser um avant-garde sem raízes? Ah sim, porque todo avant-garde é uma negação do passado, e o que é a negação de nada? Sem passado, o simples fato de existir é uma negação da inexistência precedente. Então a vida começa assim, nascemos em negação à morte, respiramos em negação à natureza peixe de nossa vida intrauterina. De repente, ele se pega com uma saudade pré-linguagem da placenta que o acompanhou e foi descartada, como as fotos de sua infância. Uma saudade pré-linguagem porque é uma negação da saudade expressa por essa palavra simplória e intraduzível: “saudade”. Orgulhamo-nos em negação aos anglicismos e galicismos, como se a intraduzível palavra “saudade” fosse capaz de traduzir à consciência o que de fato é saudade.

Quem mais é órfão de passado nesse mundo? Ele se pergunta. E cadê aquelas fotos de infância, meu deus? Vivemos num “kaizen” que não nos permite essa negação total de nossas fundações. Como serei melhor sem saber o que fui ontem?

Entra em cena o Kaos, diz ele: no começo era o verbo. Mas que verbo é esse verbo? E a própria existência da escrita pode ter ocorrido por um verbo. REMEMBER! Remember the 5th of November! Or should it be the seventh of September? E talvez fosse o verbo esse número 7, como uma seta incerta que indicasse a mudança brusca de rumo. Talvez o passado tenha sido assim, um ângulo agudo de 7, e não se perdeu mas não está mais visível porque agora você caminha numa direção diferente. Mas cadê as fotos, afinal? Estão juntas com os grunhidos do Deus quando disse que no começo ERA o verbo, ainda antes da criação do verbo.

* Texto postado originalmente em Tulip Hall.

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