07 fevereiro 2012

9. Promessa ao Liub

 Na sua forma ideal, Auletho ascendeu aos Elísios, um enorme jardim, cheio de templos clássicos, reluzentes na luz brilhante que todo o ambiente emanava.

Bem no alto de um planalto, no que poderíamos crer ser o centro do jardim, um templo aberto nos quatro lados, simples, sem nenhuma estátua, altar ou qualquer ornamento, quase vazio, se não fosse por uma grande ânfora de porcelana e linhas douradas que se entrelaçavam, por todo ele.

Dessa ânfora brotava uma água tão argentina, que seguia por quatro canais, que saiam pelas entradas do templo e de lá para o infinito. Esse era o Estige.

E em frente ao templo, eu – Liub – o esperava acompanhado de Donn Górki, que ao ver-me, logo foi se pronunciando:

- Não é que conseguiste chegar até o último rio – mal disfarçando sua evidente irritação – Parabém! Isso significa que seu amor é verdadeiro, até forte, afinal, não é qualquer criatura, seja ela mortal ou imortal, que consegue tal façanha. Agora, saberemos se o seu amor é sólido o suficiente para ser prometido em nome do Estige. Venha, criança!

Adentramos o templo, e quando lá dentro nos encontrávamos, Górki encaminhou-se sozinho até a ânfora, e da água que dela vazava encheu duas taças prateadas e nos ofereceu para delas bebermos. Estávamos, os dois, sendo postos a prova no nosso amor.

Ao bebermos, fomos tomados por um calor e luminosidade, que até o Senhor das Terras Ermas teve que se afastar. Foi como entrar na aurora, nas cores da aurora, nos tons do poente, na música, no perfume, na quintessência do exotismo, num ventre envolto em mel, num palanquim de algodão, em peles, na seda, na harmonia. Foi uma carícia de cores e texturas, expandimo-nos em uma fosforescência de corpo e da alma. Então não éramos mais duas criaturas distintas, havíamos nos tornado algo único, o Ideal. Tudo desapareceu.

Sol. Corpo ao sol, um transe deslumbrante de luz e prata, dissolvida em calor. Calor de nossos corpos. 

Abro os olhos, e estamos na clareira, nossos corpos quentes entrelaçados sobre a grama orvalhada. Tudo claro. Pássaros cantando, flores por todos os lados. Nenhum vestígio da soirée soturna e perpétua. Perto de nós, trincada e desfalecida, a flauta de bétula e carvalho, que Auletho carregara desde seu nascimento.

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