28 janeiro 2012

Augustina de Villeblanche ou o estratagema do amor (trecho)

De todos os desvios da natureza, o que fez mais pensar e pareceu estranho aos semi-filósofos que querem tudo analisar, sem nunca entender nada - dizia um dia a uma de suas melhores amigas a srta. de Villeblanche, de que vamos nos ocupar em seguida -, é neste estranho gosto que as mulheres de certa disposição ou certo temperamento concebem por pessoas de seu sexo. Seja antes do imortal Safo como depois dela, não houve uma só região do Universo, uma única povoação que não tenha nos oferecido mulheres desse estilo. Diante disso, parece mais razoável acusar a natureza de esquisita que a essas mulheres de crime contra a natureza. No entanto nunca cessaram de reprová-las e, sem a ascendência dominadora que teve sempre o nosso sexo, quem sabe se algum cujas, algum Bartole, algum Luís IX não teria imaginado fazer contra essas sensíveis e infelizes criaturas leis fatais, como promulgaram contra os homens que, dispostos na mesma singularidade e por tão boas razões sem dúvida, julgaram poder se bastar entre eles e que a mistura dos sexos, útil a propagação da espécie, bem podia não ter igual importância para o prazer. A deus não agrada que se tome um partido a propósito... não é, minha cara? - prosseguia a bela Augustina de Villeblanche dando na amiga beijos que se diriam um pouco suspeitos. Mas, em vez de fogueiras, em vez de desprezo e sarcasmos, armas perfeitamente embotadas em nossos dias, não seria incomparavelmente mais simples, numa ação tão indiferente à sociedade, a qual se aproxima de Deus, e talvez mais útil do que se pense à natureza, que se deixasse cada uma agir como ache? Que se pode recear dessa depravação? Aos olhos de alguém de fato prudente, se diria que pode prevenir depravações maiores, mas que nunca se provará que possa implicar perigos... Por Deus, receia-se que a orientação desses indivíduos, de um ou outro sexo, faça acabar o mundo, ponha em leilão a preciosa espécie humana, e que seu pretenso delito a aniquile por falta de multiplicação? Encare-se o tema a sério e se verá que todas essas perdas quiméricas são inteiramente indiferentes à natureza, que não apenas não as condena como nos mostra por mil exemplos que as quer e almeja. Se essas perdas a irritassem, as toleraria ela em mil casos? Se a procriação lhe fosse tão essencial, permitiria que uma mulher servisse para isso apenas um terço da vida e que, ao sair de suas mãos, metade dos seres que produz tivessem gosto contrário à procriação que exigiria? O certo é que propicia que as espécies se multipliquem, mas não o exige e que sempre haverá mais indivíduos do que precisa, de modo que está longe de contrariar as inclinações dos que não pensam em propagação nem se conformam com ela. Ah, deixemos essa boa mãe agir, convencidos de que seus recursos são imensos, que nada do que fazemos a ofende e que o delito que atentaria contra suas leis nunca estará em nossas mãos.

Augustina de Villeblanche ou o estratagema do amor. In: Marquês de Sade. O Marido Complacente. tradução e notas de Paulo Hecker Filho. -- Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 83-85.

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