24 janeiro 2012

8. Os rios inferiores


- E se eu provar que lhe amo, voltaria atrás na sua decisão? – Disse-me Auletho, com uma mal sucedida tentativa de mostrar-se equilibrado e seguro de si.

Antes que pudesse lhe responder, Donn o avisou que para tal, ele haveria de atravessar os cinco rios infernais até chegar ao rio dos Campos Elíseos. Isso feito, não restaria dúvidas que o amor que ele dizia sentir era verdadeiro, e assim sendo nós dois seríamos libertos, eu de minha prisão no submundo e ele de sua maldição.

Auletho aceitou a proposta e, já tendo atravessado o Rio dos Infortúnios, o único meio disponível para se chegar ao palácio do Senhor das Terras Ermas, com suas águas de almas fadadas a vagarem entre os mundos, seguiu em direção ao Rio da Dor.

Para chegar ao Flegetonte, ele precisou descer uma íngreme encosta, rodeada de hienas e abutres que constantemente lhe ameaçavam. Foi descendo e descendo cada vez mais, até chegar à beira de um rio brilhante, única fonte de luz naquele profundo abismo.

As águas do rio pareciam ser calmas, naturais, todavia ao chegar à metade da travessia, a cor barrenta tornou-se fulva e borbulhante. Tudo havia tornado-se sangue e queimava, fazendo com que sua pele se descolasse da carne, e a pele que não desprendia, era arrancada com nacos de carne por pequenas bestas aquáticas, inomináveis.

Ao sair das águas ferventes do Flegetonte despelado e com alguns músculos faltando pedaços, ele teve que seguir por uma planície com um vento gélido, que levantava uma poeira ácida, que ia lhe corroendo as carnes.

Então, depois de cerca de algumas horas de caminhada chegou ao terceiro rio, o Cócito com suas águas tão geladas que mais pareciam agulhas e punhais afiados, a espetarem e rasgar-lhe o corpo, mostrando já partes de seus ossos.

Quase congelado e bastante cadavérico, ele voltou a subir um morro, cheios de cardos e outros vegetais espinhosos, enquanto um o clima ia tornando-se extremamente quente, fazendo com que seu suor fosse se misturando a poeira acída e os venenos das plantas espinhosas, corroendo e apodrecendo as poucas carnes que ainda lhe restavam em seus ossos.

Nesse tempo, começou a pensar se eu, Liub, valia todo o esforço, então um sentimento de orgulho ferido lhe tomou, não podia aceitar ser rejeitado como fora e nem que não era capaz de atravessar todos os rios infernais. A tudo isso eu via, seja o que ele passava ou pensava, por meio de um caldeirão que Górki constantemente mexia sob um fogo azul bruxuleante baixo.

Com esse novo sentimento a insuflar-lhe as vontades ele alcançou o Lethe.

Lethe era o rio do submundo do esquecimento letal, dizia-se que antes de reencarnar, a alma devia por ali passar e esquecer-se de suas vidas passadas. Suas águas eram esbranquiçadas e retiraram os restos de carnes que ainda restavam no esqueleto de Auletho, deixando os polidos e brilhantes, como madrepérolas. A única coisa que ainda persistia eram os olhos, o coração e o cérebro do flautista esquelético.

Ao travessá-lo esqueceu-se de toda a sua vida, dos momentos lúgubres na clareira, a vida com Cora. Contudo, a renovada vontade de chegar até o último rio pelo seu orgulho ferido, fez manter o objetivo em seu espírito, justificando então a permanência dos olhos, coração e cérebro.

Agora faltavam-lhe dois rios e então, ele e eu poderiamos sair daquele mundo escuro e desolador.

O caminho até o Mnemosine foi tranqüilo, não havia animais carniceiros, nem condições climáticas extremas ou terrenos acidentados. O Rio da Verdade tinha águas claras em volta de um amplo jardim de flores em tons violáceos. Ao atravessá-lo, toda a materialidade de Auletho foi-lhe retirada, tornando-o um ser translúcido. Sua forma ideal, que era o amor que ele desconhecia, ou que antes pensava ser orgulho e interesse.

Assim, ele atravessou o as Terras Ermas e chegou até os Campos Elíseos, lugar onde se encontrava o último rio. O Rio das Promessas Perpétuas.

2 comentários:

Ronrone à vontade.