20 novembro 2011

Saga


(...) Hans suspirava e nas longas noites de Inverno procurava ouvir, quando o vento soprava do sul, entre o sussurrar dos abetos, o distante, adivinhado, rumor da rebentação. Carregado de imaginações queria ser, como os seus tios e avós, marinheiro. Não para navegar apenas entre as ilhas e as costas do Norte, seguindo nas ondas frias os cardumes de peixe. Queria navegar para o Sul. Imaginava as grandes solidões do oceano, o surgir solene dos promontórios, as praias onde baloiçam coqueiros e onde chega até ao mar a respiração dos desertos. Imaginava as ilhas de coral azul que são como os olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto, o calor, o cheiro a canela e laranja das terras meridionais.

Queria ser um daqueles homens que a bordo do seu barco viviam rente ao maravilhamento e ao pavor, um daqueles homens de andar baloiçado, com a cara queimada por mil sóis, a roupa desbotada e rija de sal, o corpo direito como um mastro, os ombros largos de remar e o peito dilatado pela respiração dos temporais. Um daqueles homens cuja ausência era sonhada e cujo regresso, mal o navio ao longe se avistava, fazia acorrer ao cais as mulheres e as crianças de Vig e a história que eles contavam era repetida e contada de boca em boca, de geração em geração, como se cada um a tivesse vivido. (...)

A sua adolescência cresceu entre os cais, os armazéns e os barcos, em conversas com marinheiros embarcadiços e comerciantes. De um barco ele sabia tudo desde o porão até ao cimo do mais alto mastro. E, ora a bordo ora em terra, ora debruçado nos bancos da escola sobre mapas e cálculos, ora mergulhado em narrações de viagens, estudando, sonhando e praticando, ele preparava-se para cumprir o seu projecto: regressar a Vig como capitão de um navio, ser perdoado pelo Pai e acolhido na casa.

Dois dias depois de ter recolhido Hans, Hoyle levou-o ao centro da cidade e comprou-lhe as roupas de que precisava e também papel e caneta.

Hans escreveu para casa: pediu com ardor perdão da sua fuga, dizia as suas razões, as suas aventuras, o seu paradeiro. Prometia que um dia voltaria a Vig e seria o capitão de um grande veleiro.

A resposta só veio meses depois. Era uma carta da mãe. Leu:

"Deus te perdoe, Hans, porque nos injuriaste e abandonaste. Manda-me o teu pai que te diga que não voltes a Vig pois não te receberá."

Depois dessa carta, Hans sonhou com Vig muitas vezes. (...)

Mas dele, Hans, burguês próspero, comerciante competente, que nem se perdera na tempestade nem regressara ao cais, nunca ninguém contaria a história, nem de geração em geração, se cantaria a saga.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Saga", In: Histórias da Terra e do Mar, Figueirinhas.

Um comentário:

  1. Simplesmente encantador!!!
    Gostei mesmo e vou anotar esta referência. Vale a pena! Muito bom!

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Ronrone à vontade.