01 novembro 2011

O Flautista Infernal - 1. A criança abandonada

Todos acreditavam, e não estavam de todo errados, que ele havia sido um bebê abandonado, que fora achado por um mascate, em uma bétula rachada, no meio de uma clareira na floresta próxima a nossa vila. Estava enrolado em panos escarlates sedosos, e junto ao seu corpo uma belíssima flauta doce, talhada em carvalho com enxertos de bétula, a mesma árvore em que se encontrava. Foi em uma noite sem lua e sem estrelas, fim do inverno. 

O mascate, que atravessava a floresta ao norte de nossa vila, encontrou o pequeno infante e o deixou aos cuidados de uma jovem viúva desprovida de filhos. Seu nome era Cora, a época com seus trinta anos e professora de música e, dizem alguns, uma filha da Grande Mãe, sendo por isso que, não se relacionava com muitos dos outros moradores de nossa vila. Não mais do que o necessário. 

Chamara a criança de Auletho, como indicava o pedaço de pergaminho preso a flauta que ele trazia consigo, e desde cedo lhe iniciou nas artes da música e dos mistérios da Mãe. Assim sendo, ele quase não participava das aventuras que nós garotos vivíamos, embora eu tivesse maior contato com ele, por também aprender a tocar instrumentos e por sempre fazer questão de tê-lo perto de mim. A sua tez límpida e louçã em contraste com aqueles cabelos negros e sedosos, além daquele sorriso fácil, mesmo quando tocava sua inseparável companheira, a flauta doce de carvalho e bétula, com aqueles lábios como cerejas. 

Às vezes, Auletho e eu fugíamos, sozinhos, para a região do lago na parte sul da vila, ficando muitas vezes até a Lua estar alta no céu. 

Quando tinha catorze anos, Cora faleceu enquanto dormia e Auletho ganhou o mundo. Seguiu pela floresta, de onde tinha vindo e que nos era proibida. Era a última noite de lua minguante daquele ciclo.

Continua...

4 comentários:

  1. Não sei exatamente a razão, mas Auletho me parece um nome tão apropriado.

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  2. Vini, Auletho é uma corrupção que eu fiz de uma palavra grega, que significa flautista.

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  3. Eu e esse meu subconsciente etimológico... kkkk

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  4. Gostei. Desnecessário repetir meus usuais elogios às metáforas ou caracterizações - invejáveis - das personagens.

    Quero relatar algo que nunca tinha visto tão fortemente marcado, e ao mesmo tempo sutil, em tuas obras:

    um forte contraponto sensual, quase erótico eu diria, à toda a mística da história.

    Como sempre muito bem escrito!

    :)

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Ronrone à vontade.