29 novembro 2011

3. Nas terras ermas

Pelo menos assim havia me parecido, uma eternidade noturna e fantasmagórica, porém, como soube depois, apenas alguns meses me separavam da tarde em que encontrei com Auletho à beira do lago.

Tudo começou quando o chá foi interrompido por uma figura bestial, que aparecera em cima de um carvalho seco, nas imediações da clareira. A criatura fantástica – sim, mesmo na condição em que me encontrava, ainda conseguia me surpreender com coisas assim – veio caminhando e farejando, espreitando tudo e todos. Chegou a mim, estacou e olhou-me como se me avaliasse. Num movimento rápido me abocanhou o colarinho, com tamanha habilidade e destreza, que nem sentir o se focinho gelado em meu pescoço, senti.

Ele me carregou até o carvalho seco, de onde havia surgido então eu pude perceber que ali havia uma grande fenda, por onde adentramos. Fomos descendo naquela escuridão, cada vez mais e sempre... Até que chegamos a uma terra seca, enevoada, negra, que cheirava e transmitia por todos os lados a corporeidade da Grande Ceifeira.

O grande cão me pôs no chão, e com seu focinho esquelético me indicou que caminhasse a sua frente, em direção a um portão decrépito, sustentado por duas árvores secas e vigiado por duas grandes aves de rapina, que o rodeavam alto no céu. Atravessei sozinho. Os seres alados e o besta-fera nada me fizeram, e nem me acompanharam. Só, segui em frente até deparar-me com um grande trono de mármore. A única coisa branca ali.

De trás do trono surgiu um homem alto de aparência grave, trajando uma armadura reluzente. Sentou-se e, depois de ter se apresentado como Donn Górki, mandou que esperasse, pois logo haveríamos de ter mais companhia.

Sem ter o que fazer, sentei aos pés da pequena escada cinza, cheia de poeira e folhas seca, que levavam até aquele estranho soberano.

Logo duas carroças, cada uma com uma cela, chegaram sem que nenhum animal de tração ou condutor as guiassem. Em uma cela, uma mulher altiva e bem vestida, na outra um homem maltrapilho com sua lira. Foram postos próximos a mim, ainda enclausurados. A mulher de rosto erguido, não tirava os olhos do anfitrião, enquanto o homem em nenhum momento moveu seus olhos do chão árido, sob seus pés descalços.

Então, tocando a sua flauta, surgiu Auletho nos portões encarquilhados.


Continua...

2 comentários:

  1. Aguardando cenas do próximo capítulo... e esperando um convite para tomar chá também! huaahuahuahu

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  2. Aguardando mais uma quinzena para uma "terça-sim" u-u

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Ronrone à vontade.