15 novembro 2011

2. O Flautista Infernal


Três anos haviam se passado.
Havia sido em um fim de tarde, o céu mais crepuscular que poente, de um tom roxo-chama bruxuleante, cingia aquela densa massa verde-escuro que era a floresta que circundava o norte de nossa vila.
Pensava naquela tarde mesmo, no que havia acontecido, mais cedo, no lago do outro lado de onde morávamos. Eu ali, olhando aquele final de tarde, rememorava.
Tinha ido ao lago, o dia estava estranhamente quente e brilhante, como não acontecia há muito tempo. Tomava banho, quando Auletho apareceu tocando flauta doce. Dela tirava uma melodia tão envolvente que, o tempo pareceu ter parado para escutá-lo e, eu me senti uma folha, dançando e rodopiando no ar, enquanto o Sol acariciava a minha pele vestida de água.
Eu fazia isso na minha mente, pois eu era o tempo. Eu havia parado e me perdido ouvindo-o tocar. E, Auletho, por entre as notas que sonhava naquele pedaço de madeira, sorria.
E logo estávamos na água juntos, brincando como só dois homens poderiam brincar.
Naquele início de noite, ainda poente, encostado no muro que delimitava as cercanias norte da vila, eu me lembrava daquela tarde, enquanto olhava a massa densa de troncos e folhas vestidos de quase.
E como se saído de um sonho, daquele meu devaneio, Auletho, do outro lado da mureta, tocando sua doce flauta, dançando e me chamando para si. Eu também o chamava, mas, quanto mais o fazia, mais ele se distanciava em direção à floresta. Tocando e dançando.
Quando ele sumiu por entre as árvores, pulei o muro e corri atrás dele, no entanto a única coisa que eu tinha dele era sua melodia. Auletho havia se fundido com a floresta.
Procurando discernir de que direção a melodia flanava, segui floresta adentro.
Depois de uma difícil caminhada de, mais ou menos, meia hora, encontrei uma clareira, onde figuras belamente vestidas se reuniam alegremente em volta de uma mesa.
A lua já ia alta no céu.
Então, Auletho, com seus olhos negros brilhantes, apareceu atrás de mim, junto com sua inebriante melodia.
Flocos de neve cintilavam em torno de nós, como fadas.
Por causa disso, aquelas belas criaturas, aqueles belos jovens rapazes de alvíssima pele e olhos púmbleos, notaram a nossa presença e, pegando-me pelo braço me postaram diante a uma cadeira. A que ficava a esquerda da cabeceira da mesa.
Todos, ali, eram rapazes e aparentavam ter a mesma idade que eu, embora meus olhos castanhos e pele de tons árabes contrastassem com a sua alvura.
Auletho tomou seu lugar, a cabeceira da mesa, após haver parado de tocar (embora a música continuasse!). Convidou-me a sentar e mandou que servissem o chá.
Sentei e bebi.
Quando tomei o primeiro gole, um crovacho crocitou, a lua cheia desapareceu, um vento frio cortou a clareira... Os olhos de Auletho brilharam ainda mais, maliciosamente, e sua pele clara queimou rubra, de um rubro fantasmático. Todos os outros olhos, olhos dos outros meninos, ficaram leitosos e a pele alva-acetinada tornou-se amarelada e macilenta.
Ao redor de mim, toda aquela maravilha que era a clareira, brilhante e alegre com sua melodia envolvente, tornou-se escura, com ossos de pequenos animais e vermes espalhados pelo chão e mesa, com uma harmonia fúnebre que saía das flautas mal entalhadas de sátiros bêbados.
E eu, desde aquele gole de chá, fiquei preso naquela soirée fantasmagórica e eterna, tendo como companhia aqueles meninos.E o que eram essas criaturas? Seres sem vontade, sem história, passado ou futuro, nem mesmo presente; não viviam. Repetiam mecanicamente os mesmos gestos e trejeitos. Parecia-me um grande balé asquerosamente sincronizado.
Primeiro dançavam aquela música agourenta, que subia e descia de modo descompassado em guinchos e pigarros. Depois sentavam-se à mesa e bebiam daquele chá verdoso-consistente e partilhavam de bolos embolorados e torradas cobertas de vermes, como se fossem as coisas mais deliciosas, como se fosse ambrosia.
Apenas Auletho e eu não comíamos essas coisas, a nós era servido chá fresco de sementes de romã e pães e frutas.


Continua...

Um comentário:

  1. Adorei a transformação do idealizado no macabro; e a diferença dos dois garotos das outras criaturas. De certa forma eu pensei em A Viagem de Chihiro, pela atmosfera.

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