17 setembro 2011

O Pica-Flor Barroco*

“[a] natureza da malícia humana (...) [tem] prazer em encontrar um vício ou um defeito por detrás de uma qualidade.” – Bréal.





Ao tempo do barroco brasileiro, período literário no qual há uma forte predominância de opostos e conflitos ideários, que remete ao momento histórico no qual o estilo está inserido, a saber, a Reforma e a Contra-Reforma, tem-se como principal poeta nacional, Gregório de Matos Guerra.
Matos Guerra nasceu ao 07 de abril de 1623, na cidade de Salvador, Bahia; e faleceu em Recife, Pernambuco, em 1696. Tem em sua produção poética desde poemas sacros, passando por de cunho lírico-amorosos e satíricos, sendo neste último que ele se revela um exímio manipulador da língua [escrita], que lhe angariou a alcunha de “Boca do Inferno”.
Nessa temática a pena de Gregório não isentava quem quer que fosse, governo, Igreja ou mesmo a cidade da Bahia como um todo. No exemplo que utilizaremos a seguir, trata-se de um poema de dez versos em redondilha maior (heptassílabo):

Se 1/ Pi 2/ ca 3/ -flor 4/ me 5/ cha 6/ma 7/ is,

- uma forma poética muito popular à época – ele satiriza uma freira.

“A uma que lhe chamou ‘Pica-flor’.” (261)

01 Se Pica-flor me chamais,
02 Pica-flor aceito ser,
03 mas resta agora saber,
04 se no nome, que me dais,
05 meteis a flor que guardais
06 no passarinho melhor!
07 se me dais este favor,
08 sendo só de mim o Pica,
09 e mais o vosso, claro fica,
10 que fico então Pica-flor.

(MATOS, G. Seleção de Obras Poéticas. p. 3-4)

O termo ‘Pica-flor’, no poema de Gregório de Matos acima transcrito, lhe serve tanto como mote quanto como síntese, como se verá no decorrer deste ensaio.
Como mote deve-se ao fato de ter sido o poeta assim caracterizado por uma freira que lhe chamou – muito imprudentemente -, como se verifica em algumas versões no recorte histórico que precede o poema: “A uma freira que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou ‘Pica-flor’.”
Quanto à síntese dá-se por o significante ‘Pica-flor’ constituir, neste poema, símbolo de união carnal, tão almejado pelo eu - lírico. Pica-flor pode ser assim significado se levar-se em consideração que o termo ‘pica’ é, em determinados contextos lingüísticos, utilizado como sinônimo do órgão genital masculino, que, por sua vez, é uma metonímia de homem. Haja vista que é também a denominação de um pássaro, conhecido como ‘beija-flor’, e desde os tempos antigos estes animais (os pássaros) são associados à figura masculina, como se pode verificar na fotografia de Henri Dussat, do “monumento helênico em forma de falo (...) [onde o] pedestal está ornado com relevos que representam o pássaro-falo que, nesse cortejo, ia sobre uma carroça” (BATAILLE, 1988).
O mesmo processo metonímico visualizado em ‘Pica’, também ocorre em ‘Flor’, no que tange a relação de representação do feminino. Assim, os dois elementos unidos, formando uma palavra composta, possibilitam outras significações, as quais serão tratadas a seguir.
A idéia de conjunção carnal vista anteriormente no significante ‘Pica-flor’, e que como já se houve dito é almejado pelo eu-lírico, é confirmada em pelo menos duas oportunidades no decorrer do poema. A primeira ocorre no sétimo verso (se me dais este favor,), em que o ‘favor’ ao qual o eu-lírico se refere é o de cunho sexual; a segunda é apresentada nos três versos finais:

08 sendo só de mim o Pica,
09 e mais o vosso, claro fica,
10 que fico então Pica-flor.

A união de elementos antagônicos, uma característica cara a estética Barroca, como verificou-se no início deste trabalho quando discorreu-se, brevemente,  acerca algumas de suas especificidades, produz a formação de um ser hibrido, equilibrado, perfeito em sua forma, dada a correspondência entre os elementos do título e que permeia todo o poema:

PICA – FLOR
1234 - 1234

Entretanto, este equilíbrio só poderá ser alcançado se for da vontade da freira em fazer do eu - lírico,de fato, um ‘Pica-flor’, tal qual, ela o havia qualificado e que nos é mostrado no primeiro verso do poema (Se Pica-flor me chamais,), assim como no recorte histórico, aqui já evidenciado. Essa delegação de poder que o eu - lírico faz em favor da freira é configurado formalmente no uso do condicional ‘se’ ao longo do poema, que passa a idéia de isenção de qualquer condenação futura do eu - lírico, já que este não a terá forçado a fazer coisa alguma.
Além disso, o uso do condicional ‘se’ em conjunção com o tom formal que o eu - lírico utiliza para dirigir-se à freira (se me dais / e o mais vosso) passa a noção de respeito, embora seja nada mais do que o escárnio do eu – lírico, ‘mascarado’.
Essa consideração acerca o poema, a proposta de união carnal entre o eu-lírco e a freira, só pode ser levada a cabo se tivermos em mente algumas características das freiras à época e que ele foi escrito e que viveu Gregório de Matos, que entravam no convento ou por terem dado um mau passo ou por serem herdeiras, eram ali postas por algum parente que pretendia gozar dos bens daquela, como nos diz Bosi (1992) na Dialética da Colonização.
Nesta breve análise de um poema de Gregório de Matos se pode perceber que o Barroco não foi um estilo literário marcado por uma linguagem hermética ou conflitos existencialistas apenas, que houve, também, uma vertente um tanto quanto mais ‘leve e descompromissada’, pautada no uso de uma linguagem e de assuntos mais cotidianos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATAILLE, G. O erotismo. trad. João Bénard da Costa. ed. 3ª. Lisboa: Edições Antígona, 1988.
BOSI, A. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das letras, 1992.
BRÉAL, M. Ensaio de semântica: ciência das significações. trad. Aída Ferrás... [et al.]. São Paulo: EDUC, 1992, p. 78.
FAUSTINO, M. De Anchieta aos concretos. (org) Maria Eugênia Boaventura. São Paulo: Companhia das letras, 2003.
MATOS, G. Seleção de Obras Poéticas. Disponível em: < http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000119.pdf> Acesso em: 02 de set. 2009.
Biografia do autor. Disponível em: <http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/GregoriodeMatos/GregoriodeMatosGuerra.htm> Acesso em: 02 de set. 2009.




*Texto apresentado na Semana Acadêmica do Curso de Letras da UFPA, 2008.

4 comentários:

  1. Muito boa sua análise, estava aqui estudando o poema e fui procurar o termo "pica-flor" pois eu não sabia sobre o que se referia, só entendi a significação que Gregório de Matos fez no poema. Achei seu blog e li a matéria, realmente uma análise muito boa.

    ResponderExcluir
  2. Olá, na sua análise fala sobre uma fotografia de Henri Dussat. Qual seria? Tenho uma apresentação a fazer e tenho que associar esse poema com um quadro, tela de alguem. Se puder me ajudar. Abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Infelizmente eu nunca encontrei a imagem de Dussat digitalizada. Talvez, não sei se caberia a associação direta, mas como pica-flor tem essa conotação sexual e há os mitos dos passáros falos, vc poderia buscar imagens do culto ao deus Príapo e a crença nos tintinábulos, amuletos de virilidade e fertilidade muito usados no período da Roma Antiga.

      Excluir

Ronrone à vontade.