08 agosto 2011

Literatura - (alguns) elementos de conceituação

Um dos (muitos) pontos pertinentes na conceituação do que é ou não literário, sem dúvida alguma, é o apoio que determinada produção tem na tradição e o modo como isto é trabalhado em sua constituição, como relembra Barbosa (1994, p. 22), em Literatura nunca é apenas Literatura, quando lembra um trecho escrito, em 1916, de Fernando Pessoa que, “dizia mais ou menos assim: ‘No mais pequeno poema de um poeta deve haver sempre alguma coisa por onde se note que existiu Homero.’ Ora, com tal não se quer dizer que, em todo poema buscaremos, tanto autor como leitor, inserir e achar, respectivamente, traços da épica homérica, e sim, “[ecos d]aquilo que fez um grande poeta do passado [...], apesar de todas as inovações que devem existir, evidentemente.” (Idem). Um claro exemplo disso é o poema Teresa, de Manuel Bandeira, que recupera a figura de mulher, neste caso Teresa, do poeta romântico Castro Alves, posto no poema O “adeus” de Teresa.

Ambos os poemas tratam de uma mulher, Teresa, e as impressões que ela causa no eu – lírico. Na versão romântica a apresentação dá-se de forma delicada e apaixonante, de amantes, o que já não é verificado no poema de Bandeira, que a vê como uma mulher sem atrativos de encantamento.

As fôrmas dos poemas, também, são divergentes, enquanto a versão romântica apresenta estrofes de um só verso, a modo de parecer um refrão que intercala, com algumas alterações sintagmáticas, no estilo das cantigas trovadorescas, e quatro estrofes de cinco versos cada, sua contraparte moderna vem em três estrofes de três versos cada, sem aparentar uma metrificação trabalhada, como se fosse, em alguns casos, uma construção mais próxima da prosa.

A partir dessas considerações sobre estes poemas, percebemos que, o poema de Bandeira está amparado em uma produção que, além de ter permanecido no cânone literário e, portanto, estar inserida na tradição, apresenta novos elementos, que fazem com que o poema seja uma produção nova, e não apenas uma repetição de temas, tal qual evidenciado, anteriormente, na citação, aqui feita, de Barbosa (Ibdem).

Além disso, há que também se observar a relação do produzido com o seu autor, e em que suporte ele é veiculado, por que tais elementos são responsáveis pela constituição do corpus literário e do não literário.

Sob essa perspectiva, não consideraríamos o poema O homem que eu amo, de Valéria Lopes, como um texto literário, tendo em vista que, mesmo que, em sua composição haja a utilização de elementos da tradição, verificados no texto Confissões de uma Viúva Moça, de Machado de Assis, ela, diferentemente do ‘Bruxo do Cosme Velho’, não é uma escritora reconhecida pela crítica e nem por um público leitor, como também não tem seu texto publicado em suporte livro, e sim em um site da internet de cartões virtuais.

Ou seja, a sua produção não passa pelo ambiente legitimador do que seja Literatura, que, de acordo com Culler (1999, p. 33), são textos literários que “passaram por um processo de seleção: foram publicados, resenhados e reimpressos, para que os leitores se aproximassem deles com a certeza de que outros os haviam considerados bem construídos e ‘de valor’.

Tudo isso posto, percebemos que conceituar Literatura não é das tarefas mais simples, que para tal, há que se observar a presença de um conjunto de elementos nos textos utilizados para a exemplificação, como verificamos no decorrer deste pequeno ensaio.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, João Alexandre. Literatura nunca é apenas literatura. Série Idéias n.17. São Paulo: FDE, 1994. p. 21-26. Disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/lei_a.php?t=013

CASTRO ALVES. O “adeus” de Teresa. Disponível em:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/castro-alves/o-adeus-de-teresa.php

CULLER, Jonathan. “O que é literatura e tem ela importância?”. In: CULLER, Jonathan. Teoria Literária – uma introdução. São Paulo: Beca, 1999. p. 26-47.

MACHADO DE ASSIS. Confissões de uma Viúva Moça. Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000190.pdf

BANDEIRA, Manuel. Teresa. Disponível em:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/manuel-bandeira/tereza.php

LOPES, Valéria. O Homem que eu amo. Disponível em:
http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/2980387

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