09 julho 2011

Uma noite de chuva*

Fonte: Chuva
Pela janela fustigada pela chuva, que desabava do lado de fora do Café, eu observava aqueles transeuntes liquefeitos e embaçados, as sombras esfumaçadas das árvores do parque, um Aqueronte de sombras disformes.

Tudo isso, eu via, pelo menos era o que meus olhos me mostravam. Enquanto, ali sentado naquela mesa bem de canto, escondida, eu tomava um café expresso, amargo. Mas, comparada a espera que ali, naquela mesa, se desenvolvia num crescente desenfreado, era doce. A espera me corroía.

Cada tilintar do sino da porta ao ser aberta, ou mesmo ser fechada, meus olhos treinados pelo hábito se direcionavam para a direção da entrada e sempre a adrenalina era sucedida pela frustração.

Frustração também crescente, como a espera. Do mesmo modo, a iluminação do ambiente se tornava, a cada minuto mais e mais escura, conforme o dia transformava-se em tarde e a tarde em noite, de um dia de chuva.

Não havia notícias de que viesse, sequer poderia dizer que você realmente existisse, pois já começava a pensar que não passava de uma traquinagem da minha mente. Tu es le fruit de mon imagination fertile, mon cher, don’t you?

Ou talvez eu fosse o imaginado, já que ninguém ali parecia notar a minha presença, nem mesmo quando as portas do café estiveram a fechar. Ninguém pediu que eu me retirasse, eu sempre sensato, me levantei e saí pra rua, pro frio, pra chuva, pro meu coração.

Vaguei pela cidade, por becos escuros e ruas desertas, cheias de você e de mim. Então, como se acordado de um sonho, estou em frente para uma varanda. Há um gato, apenas, em cima de uma cadeira.

Ele vem até mim, me rodeia e vai-se, não sem antes me lançar um olhar malicioso que eu não soube interpretar, se é que havia algo para se entender.

Entrei e, já no segundo andar da casa, cheguei ao quarto. Ao entrar, me deparei comigo deitado na cama, dormindo embalado pela chuva que lavava o mundo do lado de fora.

*

Da janela da sala, via negras nuvens redemoinhadas no céu e ondas brancas do mar revolto abaixo delas. Da janela daquele casebre, no qual eu estava postada, sentia a pressa do vento molhado em meus braços e colo nus.

A tempestade que chegava não me tirava as esperanças, pelo contrário, fazia-me ter a certeza da vida que corria todo o meu corpo, todo o meu ventre já levemente acentuado.

Esperava-o. Mesmo sabendo que ele não haveria de retornar, pelo menos não como até então o conhecera. Ele retornaria, reencarnado naquela criança que me faria crescer em mim mesma, tanto que transbordava em uma nova carne, uma nova vida.

*

Ali, deitado, com a chuva decidida em mostrar-se, gritando, implorando um pouco de reconhecimento e atenção, eu começava a me perguntar o que era aquela minha espera, aquela minha falta? Sempre tão pungente, tão eterna, como o próprio criador, que veio antes de tudo e que, mesmo com o fim, meu fim, permanecerá incólume, inescrutável, talvez, para todo o sempre de mim.

Eu, ali em pé. Eu, ali deitado. Eus. Eu ao mesmo tempo não sendo eu, me enxergando como se fosse outro. Um outro tão diferente que poderíamos ser, de fato, pessoas diferentes, com idades diferentes, estórias de vida incomuns e, ao mesmo tempo, uma extensão temporal um do outro, um fluxo-contínuo psicológico.

A dor da chuva em mim ou a dor que a chuva me causava continuava, enquanto me perdia vendo-me perdido em um céu revolto de lençóis brancos de algodão chinês.

*

Da janela em que eu via a tempestade que se aproximava, também via a figura de um homem, com seus quarenta anos, observando um jovem rapaz, com seus vinte e poucos anos, deitado em um mar de lençóis, em uma noite de muita chuva. Duas partes de algo que um dia havia sido eu mesma. Duas partes esperando tornar-se uma só, de novo.

*

A chuva que se via, mostrava através dos vidros chorosos da janela daquele quarto, em que o rapaz dormia, os braços e colo nus de mulher que espera, espera a vida explodir em uma tempestade de vida sobre o mar.



*Texto selecionado a compor a Antologia do 2º Prêmio PROEX de Literatura, da UFPA. 2011.

2 comentários:

  1. Dan, aprecio seu texto sem moderação! Adoro eles, você tem futuro, amigo!
    Mas eu sugiro um que envolva uma tarde ensolarada, hehe. =*

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  2. Nossa!!! É um texto muito intrigante. Pude sentir essa espera que sufoca e transforma... nos colore e nos desbota.
    O final é muuuito bom mesmo! Seus textos são bons mesmo e parabéns pela publicação no prêmio Proex!!!

    Até mais!

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Ronrone à vontade.