18 julho 2011

A produção poética de Cruz e Sousa sob a luz de alguns temas


A produção poética de Cruz e Sousa, tido como o representante primeiro e de maior significação na estética simbolista brasileira, traz em sua composição não só, de acordo com o que nos diz Ivan Teixeira (Cult, 1988), “a preocupação constante com a teoria da expressão e da construção do texto (...) [como também,] uma percepção metafórica das coisas, o apego ao enunciado oblíquo”.

Essas considerações de Teixeira podem ser verificadas não só, no que tange à forma como os poemas apresentam ritmicidade musical, que advém não só das rimas construídas, mas da maneira que Cruz e Sousa organiza a estrutura sintática do que escreve, que, além disso, sempre parece estar fortemente relacionado com a temática do poema.

Ao lado da “percepção metafórica das coisas” e “o apego ao enunciado obliquo” está à preocupação em sugestionar uma idéia, um sentimento; que vem de um princípio de estética simbolista, explorar “o inconsciente à custa de símbolos e sugestões, que prefere o mundo invisível ao visível, que quer compreender a vida pela intuição e pelo irracional, que explora a realidade situada alem da razão”, como nos diz Coutinho (1986, p.57).

Para tanto, o poeta deverá ser sempre o “Assinalado”,
Tu és o louco da imortal loucura
O louco da loucura mais suprema
[...]
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado
Ou seja, alguém que deve estar em uma esfera diferenciada das dos demais, já que cabe a ele dizer o indizível das sensações, o que o levará à “metaforização” das coisas e uma opacidade do enunciado, pois traduzir o que vai na alma não pode ser feito através de termos diretos, concretos, tendo em vista que essa subjetividade do ser é abstrata, e só termos abstratos podem levar a sentir sensações abstratas, e não só vocabulário, e sim todo o poema. Todo o poema será Símbolo.

Sendo assim, podemos entender que “Bêbado”, composição em prosa-poética, é senão, o símbolo do poeta, tal qual o é “o Assinalado”, pois que este bêbado “que gesticulava e falava [...] proferia palavras [...] confusas” um ser nebuloso que possui a “alma sem humor”, uma névoa em seu entendimento (razão), “visões de sonâmbulo”, é como o poeta simbolista, que há de vagar sozinho com as suas visões oblíquas, do alto da sua torre de marfim, distante das pessoas e suas visões comuns acerca da vida, e de todas as coisas.

Essa visão do poeta Cruz e Sousa como alguém sempre solitário nos sugestiona um olhar pessimista quanto a sua condição, pois ele em sua caminhada sempre estará sozinho, apartado do mundo, um marginal, tal qual “Bêbado”.

Outra característica da produção poética de Cruz e Sousa refere-se a um “satanismo pessimista (que se biparte em devorações carnais do sexo e em êxtases de vitória diante da igualdade aniquiladora dos vermes)” (TEIXEIRA, 1988).

Ora, já verificamos traços de pessimismo anteriormente, quando tratamos da representação do poeta, contudo somam-se, a esse, “uns quês” satanistas, influência baudelairiana d’As Flores do Mal, provavelmente. Contudo é importante frisar que, este viés satanista deve ser compreendido como símbolo, não do Diabo, mas das coisas nefastas, do nefando, do soturno, nas quais, então o “arcangélico Deus Negro, o trimegisto, de cornos agrogalhardos, de fagulhantes, estriadas asas enigmáticas” estaria contemplado, como vemos neste excerto de “Emparedado”.

A figura do Diabo é vista também no poema “Flor do Diabo”, e este se apresenta, ao fim, como um ser cansado e desiludido com a sua criação, a flor, que já não é mais “ingenuamente dócil”. Essa criação do diabo, de que nos fala o poema, nos leva a entender que seja a Mulher, que é, no fim, a causa do sofrimento dos homens, “estes pobres diabos”, já que de certo modo, são criações destes, considerando que, de acordo com a religião cristã, ela foi feita a partir de uma das costelas de Adão.

Já no poema “Ironia dos vermes” vemos ainda idéias funestas e nefandas, de morte, só que por um viés diferenciado: “em êxtases de vitória diante da igualdade aniquiladora dos vermes”.

Pelo próprio nome do poema podemos depreender o tom que será utilizado na escrita, a ironia. Ele nos fala sobre uma jovem, “[...] uma princesa / Morta na flor da castidade branca...” que por seu familiares é tratada com toda a deferência, frente a sua morte, mas que isso tudo para os vermes não importa, pois, como nos diz o excerto abaixo, eles não fazem distinção entre princesas e camponesas:
Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,
Imaginária e cândida Princesa:
És igual a uma simples camponesa
Nos apodrecimentos da Matéria!
É essa igualdade que dá o tom de ironia, já que todo o cuidado que tiveram para com ela, não a livrará de ter o mesmo fim que qualquer outro, o que também nos leva a uma visão pessimista do autor, todos serão comidos pelos vermes.

Há em Cruz e Sousa, por toda a sua produção poética, poemas com os temas aqui verificados, ora imbricados, ora não; como também a presença de muitos outros, e é isso que fez dele, além do trato diferenciado com o escrever, o nome primeiro do Simbolismo brasileiro.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

COUTINHO, Afrânio. Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, Impressionismo e Modernismo. In: ______ (org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: EDUFF, 1986.

CRUZ E SOUSA. A Flor do Diabo. In: CRUZ E SOUSA. Fárois. Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00079a.pdf

_____. Assinalado. In: CRUZ E SOUSA. Últimos sonetos. Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000078.pdf

_____. Bêbado. In: CRUZ E SOUSA. Missal. Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00080a.pdf

_____. Ironia dos Vermes. In: CRUZ E SOUSA. Fárois. Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00079a.pdf

TEIXEIRA, I. Metafísica e exílio. Revista Cult, 1988. p. 46-53

Um comentário:

  1. OOOOOOOOOOlha só, a prova da Marli Furtado dando origem a um artigozin'.

    kkkkkkkkk

    Parabéns Dan.

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Ronrone à vontade.