21 julho 2011

Le Flûtiste Hadéen*

Floresta Negra
Fonte: All Posters
Havia sido em um fim de tarde, o céu mais crepuscular que poente, de um tom roxo-chama bruxuleante, cingia aquela densa massa verde-escuro que era a floresta que circundava o norte de nossa vila.

Pensava naquela tarde mesmo, no que havia acontecido, mais cedo, no lago do outro lado de onde morávamos. Eu ali, olhando aquele final de tarde, rememorava.

Tinha ido ao lago, o dia estava estranhamente quente e brilhante, como não acontecia há muito tempo. Tomava banho, quando Caio apareceu tocando flauta doce. Dela tirava uma melodia tão envolvente que, o tempo pareceu ter parado para escutá-lo e, eu me senti uma folha, dançando e rodopiando no ar, enquanto o Sol acariciava a minha pele vestida de água.

Eu fazia isso na minha mente, pois eu era o tempo. Eu havia parado e me perdido ouvindo-o tocar. E, Caio, por entre as notas que sonhava naquele pedaço de madeira, sorria.

Naquele início de noite, ainda poente, encostado no muro que delimitava as cercanias norte da vila, eu me lembrava daquela tarde, enquanto olhava a massa densa de troncos e folhas vestidos de quase.

E como se saído de um sonho, daquele meu devaneio, Caio, do outro lado da mureta, tocando sua doce flauta, dançando e me chamando para si. Eu também o chamava, mas, quanto mais o fazia, mais ele se distanciava em direção à floresta. Tocando e dançando.

Quando ele sumiu por entre as árvores, pulei o muro e corri atrás dele, no entanto a única coisa que eu tinha dele era sua melodia. Caio havia se fundido com a floresta.

Procurando discernir de que direção a melodia flanava, segui floresta adentro.

Depois de uma difícil caminhada de, mais ou menos, meia hora, encontrei uma clareira, onde figuras belamente vestidas se reuniam alegremente em volta de uma mesa.

A lua já ia alta no céu.

Então, Caio, com seus olhos negros brilhantes, apareceu atrás de mim, junto com sua inebriante melodia.

Flocos de neve cintilavam em torno de nós, como fadas.

Por causa disso, aquelas belas criaturas, aqueles belos jovens rapazes de alvíssima pele e olhos plúmbeos, notaram a nossa presença e, pegando-me pelo braço me postaram diante a uma cadeira. A que ficava a esquerda da cabeceira da mesa.

Todos, ali, eram rapazes e aparentavam ter a mesma idade que eu, embora meus olhos castanhos e pele de tons árabes contrastasse com a sua alvura.

Caio tomou seu lugar, a cabeceira da mesa, após haver parado de tocar (embora a música continuasse!). Convidou-me a sentar e mandou que servissem o chá.

Sentei e bebi.**

O Flautista de Hamelin
Fonte:
Mentes Insanas
Quando tomei o primeiro gole, um corvacho crocitou, a lua cheia desapareceu, um vento frio cortou a clareira... Os olhos de Caio brilharam ainda mais, maliciosamente, e sua pele clara queimou, rubra, de um rubro fantasmático. Todos os outros olhos, olhos dos outros meninos, ficaram leitosos e a pele alva-acetinada tornou-se amarelada e macilenta.

Ao redor de mim, toda aquela maravilha que era a clareira, brilhante e alegre com sua melodia envolvente, tornou-se escura, com ossos de pequenos animais e vermes espalhados pelo chão e mesa.

E eu, desde aquele gole de chá, fiquei preso naquela soirée fantasmagórica e eterna.



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* Agradecimentos especiais ao Foxx, do blog Estórias do Mundo, que ajudou com as raízes mitológicas do costume de 'sentar e comer'.
**A expressão “sentar e comer”, aqui usada, vem de um dos mitos que envolvem o herói Teseu, que desceu ao Hades junto com Piritoo, a fim de raptar a Rainha dos Mortos Perséfone, para que esse último pudesse desposá-la. No submundo foram convidados, ardilosamente, para um banquete do Deus Infernal. Sentaram-se e comeram. Assim, Ficaram presos às suas cadeiras. Sentar então significa: intimidade e permanência, enquanto que comer: a fixação.
Comer comida do submundo, também, pode significar, para além de fixação, a “morte”, como o que aconteceu com Perséfone, quando comeu uma romã do reino de Hades.

2 comentários:

  1. Conto simplesmente fantástico, muito bom, minha primeira leitura do dia nesse sábado claro e remediável. Já sigo o blog com louvor, abraços.

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  2. Dan, você realmente precisa continuar a novela :) Abraços!

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Ronrone à vontade.