12 julho 2011

“Ela canta, pobre ceifeira” e a heteronímia em Fernando Pessoa

Nos versos do poema: “Ela canta, pobre ceifeira”, há expressado duas das temáticas mais importantes da poética de Fernando Pessoa, a saber: “o desejo, impossível de ser realizado plenamente, de conhecer o outro”, evidenciado na primeira estrofe, segundo verso: “Julgando-se feliz, talvez”, porque, ao eu-lírico, a ceifeira parece-lhe feliz, mas ele não tem como sabê-lo, pois ele não pode ser ela, embora seja isso que ele deseja: saber ser ela.

Entretanto esse saber ser ela, não é um ser ela inconsciente, o eu-lírico deseja esse conhecimento da “pobre ceifeira”, mas com a consciência de sê-la, de ter ciência de sua inconsciência, de mesmo que não tenha motivos de ser feliz, cantar como se fosse.

Tal afirmação pode ser comprovada, diretamente com a citação dos três versos da quinta estrofe do poema:
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Porém, ser feliz como a ceifeira o é, sendo ciente de tal, levaria a perda de uma inocência, que seria a própria sensação de felicidade, posto que “[...] A ciência/ Pesa tanto e a vida é tão breve!”

Fernando Pessoa leva esse desejo de querer conhecer completamente o outro, para muito além de sua produção poética, por meio da despersonalização ou fragmentação do eu, a fim de que pudesse abarcar tudo, sentimentos, pensamentos.

Assim, surgem-lhe seus heterônimos, os quais ele “distribui” características, como podemos ver a seguir no trecho a carta endereçada a Casais Monteiro:
[...] pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. (Lisboa, 13 de Janeiro de 1935)
Essa característica criadora o leva a querer “ter todo o conhecimento das coisas”, tal qual o seu Fausto, e está presente desde a sua infância, sendo a de maior notoriedade a verificada em sua maioridade, como o próprio Pessoa revela:
Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. (Idem)
Sendo assim, podemos dizer que, em sua vida Fernando Pessoa tentou trazer para a prática as questões que “trabalhava” em sua poética, por isso é considerado por tantos: ‘um drama em gente”.

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