16 junho 2011

O Voo*

O vento, frio e ligeiro, batia-lhe no rosto quente e fogueado, refrescando-lhe o corpo bêbado. Sorria. Um sorriso estúpido, de quem voa, e não sabe que está a voar.

Imagens de suas últimas horas passeavam por sua face; feito borrões, feito chicotes, que estalavam contínua, paulatina, progressiva e ciclicamente.

O beijo em sua mulher e filho vazio e automático. A cidade vazia de olhares. O canteiro de obras, fechado depois do almoço de todo o dia, vazio de emoção. 

Feijão com arroz. Feijão com Arroz. Feijão com arroz. 

Sete dias na semana. Doze horas de trabalho.

Sábado. Domingo. Semana útil. Feijão com arroz. Sete dias. Doze Horas. Sábado.

Voava debilmente, olhar oblíquo-vago, sorriso estúpido de dentes amarelos. E como um pacote esquecido, rubro como os tijolos da construção, se estatelou, um sorriso mórbido pendurado no asfalto. Trânsito lento em uma cidade vazia de emoção.




* Texto, em sua primeira versão, escrito na Oficina de Literatura, ministrada no dia 04 de Junho, e era intitulado de "A Queda". Foi baseada na música "Construção", de Chico Buarque. 

2 comentários:

  1. o texto é fantástico em parte pelo poder de síntese, em parte pela construção (o trocadilho quase inevitável) das imagens nele.
    muito bom como a poesia ganhando o campo da prosa não se perde, mas se transforma com o teu novo ponto de vista. legal o texto passar nos últimos segundos do operário (que não é o em construção e sim o destruído). legal tanta coisa no texto que só posso dizer: realmente muito bom!

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  2. Esse texto é o que mais gosto. Ele mescla tantos elementos bons de se ler. Ficou realmente muito bom! O Adônis disse tudo acima.


    Até a próxima!

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Ronrone à vontade.