12 junho 2011

Momento*

Foto de Leonardo Sette¹ Fonte: Diário Contemporâneo

Quarta-feira. Multidão na rua. Muitos rostos graves, alheios. E ela, ali, em sua explosão de felicidade, ao perceber que ela também estava lá, a sua frente, em meio à multidão, as árvores pálido-desnudas, prédios reais.

O momento fotografado pela memória das retinas, de lentes da máquina, e de outra ainda mais (im)precisa e verdadeira (?) d’O Grande Arquitecto do Universo.

Enquanto momento vívido-vivido, guardado-inscrito no espaço-tempo-liquefeito de abstrações, (muitas) pessoas com seus rostos graves, alheias pensavam pensamentos outros, instrospectos ou mesmo compartilhados com outras em igual situação.

Almoço por fazer. Condução lotada. Sujeira da cidade no dia seguinte. O dia seguinte.

Sim, o dia seguinte, que para muitos seria mais um, nada mais. Porém, para elas e um outro seria completamente novo, prenhe de sentimentos.

Cumplicidade. Responsabilidades. Solidão. Amor. Poder.

Elas se tinham, o outro conquistara uma nação. O Reino da Moda de Maria Antonieta, da adúltera Mme. Bovary, da Comédia Humana Balzaquiana, do iluminado Rousseau e do Romeu e Julieta às avessas de Zola.

O reino que, tendo marchado sobre Roma, perdeu para Alexandre, que não o Grande, e sim o VI, que enganou o rei francamente feio e seus canhões.

O outro, esse novo “soberano” francês, não importava, já que elas estavam juntas novamente, não até uma nova eleição, mas até o fim e depois do mandato daquele. Por que, mesmo que não mais existissem, aquelas lembranças, gravadas-inscritas em foto, em foto da foto e pintura d’O Grande Arquitecto do Universo reverberariam para além.

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* Texto escrito na Oficina de Literatura, a partir de uma imagem de Leonardo Sette de “As Luzes inimigas”, instalação vencedora do II Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia – Crônicas Urbanas, na categoria “Diário Contemporâneo”. Em: 11 de junho de 2011. Reescrito em: 12 de junho de 2011.

¹ Leonardo é graduado em História do Cinema pela Université Paris 1 – Panthéon Sorbonne, Participou de oficinas e cursos de especialização entre eles o de Taller de Fotografía Cinematográfica – Escuela Internacional de Cine y Televisión San Antonio de Los Baños, Cuba e Oficina de Documentário – La Fémis - Ecole Nationale Supérieure des Métiers de L’image et du Son, em Paris. Ele colabora desde 2001 com o Projeto Vídeo nas Aldeias, dentro do qual produziu e montou mais de 20 curta-metragens e dois longa-metragens.
Em 2008, realizou seu primeiro curta-metragem “Ocidente”, de sete minutos. Em 2009, realizou “Confessionário”, de 15. Em dezembro de 2010 foi contemplado pelo Programa Petrobras Cultural para a realização de seu terceiro curta-metragem, “Leme”, cujas filmagens devem iniciar no segundo semestre.

4 comentários:

  1. Realmente um texto belíssimo e muito bem escrito. Fiquei muito feliz de ter visto nascer este texto. Escreves muito bem!

    Até mais!!!

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  2. PS: tive a liberdade de pegar seu banner e anunciar no meu blog em "pintando outros artistas..."... Seu blog é muito bom!

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  3. Amigo, sua capacidade discursiva sempre me impressiona. Pra não dizer que gera uma pontinha de inveja... HAHAHA

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Ronrone à vontade.