06 abril 2011

O Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade: incompetência formal ou postulado filosófico?

Por Daniel Prestes

A fim de comemorar o aniversário de 70 anos do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, a Revista BRAVO!, de maio de 1998, convidou seis ensaístas para escreverem sobre o que, na percepção deles, é pertinente ainda.

Em Banquete dos Ossos, Tolentino nos apresenta uma postura inflamada e nada agradável dos modernistas que, segundo ele, não passaram de “subpoetas”, pois teriam desvirtuado a Língua, por uma causa que seria um capricho, pois aconteceria no decorrer do tempo, já que a Língua é mutável.

O Autor do ensaio, também, pondera acerca a produção dos modernos, salientando que, os que ficaram como grandes (Guimarães Rosa e Cecília Meireles, por exemplo), se afastam e muito do que fora produzido por Oswald e Mário, apresentando uma linguagem digna de Machado de Assis ou mesmo Fernando Pessoa e outros grandes da literatura lusófona.

Pare ele, a única herança que nos foi deixada, pelos modernos, é o de uma “receita de ‘liberdade’ que se resumia a incompetência formal mais libertária e que culmina hoje num relaxamento idiomático de cunho improvisatório, sob o selo e sanção universitário”, o qual transformou as indignações modernistas em clichês acadêmicos. Muitos dos modernos tinham noção das normas poéticas, as quais deixavam de lado, entretanto, a liberdade, que nos legaram, abriu um abismo, pois os jovens de hoje não sabem, como ele mesmo menciona em seu ensaio, “o que é número, medida, rima”, dentre tantos outros artífices da escrita poética.

Outro aspecto que o ensaísta, também, critica, na postura dos modernistas, é o fato deles terem, ao contrário do que se pretendia fazer acreditar, se inspirado em muitas coisas estrangeiras, e depois, o que é considerado uma atitude ainda mais danosa por parte de Castello (outro ensaísta convidado), se fechando em questões demais exóticas, demais ‘regionalistas’, transformando assim, a produção pobre de força e significação, perdendo sua característica inovadora, verificada nos posicionamentos vistos antes do Manifesto Antropófago, o que culminaria em um fracasso modernismo brasileiro, nas palavras, ainda, de Castello, já que a produção não teve a envergadura necessária para corresponder a agitação feita em torno de si.

A exceção do ponto levantado por Tolentino, em relação a corrupção da linguagem, Benedito Nunes, em seu ensaio Do Tabu ao Totem, trabalhará com a perspectiva de que o Manifesto Antropófago, não tinha como ideal, apenas o de ingestão do Outro e depois a reconfiguração do mesmo, em algo nosso, mas sim, como um processo antropofágico da própria atitude antropófaga. Ou seja, no fim de tudo, passaríamos a uma “atitude devoradora generalizada”
.
O Manifesto, embora tenha sido uma produção ‘panfletária’, deveria ser visto como um pensar filosófico, como uma postura diante da vida, tanto que, depois de sua fase marxista, Oswald (tenta) o retorno a busca do primitivismo, sempre com um olhar antropológico, o que para Benedito Nunes, é a melhor marca deste ‘produto’ do período, pois “é esse olhar [...] que radiografa o irredimido patriarcalismo da sociedade brasileira e de sua cultura, transparente nas violentas estruturas sociais que nos geraram, juntamente com a mentalidade colonial e particularista de nossas instituições públicas”.

Seja pelo viés abordado, tanto por Tolentino ou Castello como por Benedito Nunes, sobre o Manifesto Antropófago, é certo afirmar que, enquanto movimento que buscava, ao menos, a contestação de algo imposto, Oswald de Andrade foi bem sucedido, tendo em vista que, mesmo sendo hoje, transformado em um grupo pertencente a uma “Escola Literária”, pois ainda suscita divergências e nos faz tomarmos posicionamentos, sejam eles de acordo ou desacordo.

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