21 março 2011

Vidas Secas – A composição do texto literário em contraposição ao texto fílmico: a relação dialógica e outras questões¹

Por Daniel Prestes²

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, apresenta em sua estrutura 12 (doze) capítulos, que apresentam variação, no que tange o narrador, já que cada membro da família vai apresentar a sua perspectiva sobre os acontecimentos pelos quais passaram, muito embora isso seja feito em terceira pessoa, no discurso indireto.

O fato de ser apresentado na perspectiva de cada membro da família, inclusive da cachorra Baleia, sobre o que acontece com eles, por meio do fluxo de consciência, faz com que ‘uma pintura’ seja composta em nossa frente, a medida que avançamos na leitura. Isso se deve ao fato de que, alguns fatos vão se repetindo, sempre com a adição de um dado novo, como ‘uma obra feita a várias mãos’, é justamente essa característica que faz com que a obra, em relação a sua estrutura, seja dialógica, pois só pode ser construída com a ajuda de todos, com suas percepções do mundo que os rodeia, além dos sonhos e desejos, que secretamente alimentam.

Já em relação ao filme homônimo (1963), de Nelson Pereira dos Santos, essa característica se perde, pois, diferentemente da obra literária, o texto fílmico tem a necessidade de se por, o máximo, possível em uma linearidade de ação e de estruturação, fazendo assim com que, as personagens percam espaço na narração, além de fazê-las conviverem em espaços que antes não compartilhavam, como no caso, de quando a relação de Fabiano com a família é mostrada a partir do convívio ‘real e palpável’, o que não verificamos na obra de Graciliano Ramos, que nos apresenta os sentimentos da personagem através da sua psique (fluxo de consciência).

Outra variação existente, no modo de apresentação de elementos, é que a descrição do cenário, feita por Graciliano, é substituída por tomadas um pouco mais demoradas das locações, evidenciando, de alguma maneira, o que está no texto escrito.

Em relação a adaptação, há tantas outras características que poderiam aqui ser citadas, que fazem contraposição de um texto para o outro e que, evidenciariam algo primordial no trato de textos literários e suas transposições para qualquer outro gênero textual, seja ele midiático, cinema e televisão, ou não, que é o fato de serem textos distintos, e por isso não há a cobrança se serem cópias fiéis dos textos que o originaram (por isso chamam-se adaptações) até porque, por estarem em gêneros distintos devem obedecer as possibilidades e limitações que estes impõem. Afinal, se fossem pra serem cópias idênticas, não haveria a necessidade de fazer as adaptações.

¹Resenha apresentada à disciplina de Literatura Brasileira Contemporânea 2.
²Aluno do curso de Graduação em Letras - Habilitação em Língua Portuguesa, da UFPA.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1989.
Vidas secas. Direção: Nelson Pereira dos Santos. 1963.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE APOIO E ORIENTAÇÃO

ANAMI, D. Y. Vidas Secas: A incomunicabilidade no livro e no filme. Disponível em: http://www.ufscar.br/rua/site/?p=414 acessado em: 02 de dez. de 2010.

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