01 março 2011

CHARLES BAUDELAIRE E EÇA DE QUEIRÓS: O HOMEM MODERNO¹

Por Daniel Prestes da Silva²

Em sua obra Sobre a Modernidade (1996), Charles Baudelaire traça o perfil do que seria um homem moderno ideal, no capítulo IX dedicado a’ “O Dândi”:

O homem rico, ocioso e que, mesmo entediado de tudo, não tem outra ocupação senão correr ao encalço da felicidade; o homem criado no luxo e acostumado a ser obedecido desde a juventude; aquele, enfim, cuja única profissão é a elegância sempre exibirá, em todos os tempos, uma fisionomia distinta, completamente à parte. (p. 47)

Este mesmo ideal de homem moderno, talhado por Baudelaire, é visto na figura de Fradique Mendes.

Fradique Mendes é uma personagem criada por Eça de Queirós, Batalha Reis e Antero de Quental, que deveria ser a representação, na visão desses intelectuais, do Homem Moderno. Aparece no livro As correspondências de Fradique Mendes (2009), a qual é dividida em duas partes, a primeira é uma biografia da personagem, que aborda muito das questões levantadas por Baudelaire, acerca a postura do Homem Moderno, seja ele como dândi, por meio da apresentação feita pelo narrador das “Memórias e Notas”, como quando ele fala da figura de Fradique, que é a de alguém possuidor de uma “esplêndida solidez, a sã e viril proporção dos membros rijos” (p. 34), em outras palavras, ainda de acordo com o narrador, “um varão magnífico – dominando , sobretudo por uma graça clara que saía de toda a sua força máscula” (p. 35).

Na segunda parte, que é composta por cartas escolhidas pelo narrador da biografia de Fradique, percebemos não um tom de intimidade, como se esperaria dos romances espitolares que estavam em voga na época, e sim, um certo, pedantismo erudito e uma sentimentalização do amor tão exagerada, que nos leva à uma superficialidade gélida, de acordo com Pinto (2009) no texto Um velho romance contemporâneo.

Percebemos certas semelhanças de Fradique com outras duas personagens de Eça, provenientes do romance O primo Basílio  (2010)³, que são: Basílio e seu amigo Visconde Reinaldo, muito embora, aquele não esteja incluído na categoria de Fradique, no que tange a burguesia aristocrática, que o leva a ser um dandi, touriste (como o própio Fradique se autodenomina) ou mesmo um flâneur. Basílio teve que trabalhar no desterro, entre as colônias portuguesas, para adquirir o seu dinheiro que se encontra guardado em um banco inglês, enquanto que Fradique sempre fora abastado e herdeiro, o que lhe angariou desde muito cedo a ociosidade necessária para cultuar os hábitos modernos.

De acordo com Saraiva & Lopes (1969),

Fradique não passa de um diletante, que pretende incorporar na sua pessoa o máximo de sensações e de ideias, mas inteiramente desligado de quaisquer finalidades colectivas. [...]. Eça de Queirós simplificou, de resto, os problemas de Fradique quanto aos outros homens, supondo-o imensamente rico, o que lhe permite realizar de facto todos os projectos e caprichos. (p. 904)

É, justamente, essa característica de ser rico o suficiente que Baudelaire (1996) acredita como meio de um dândi poder ser o que é “porque o dinheiro é indispensável aos que cultuam as próprias paixões” (p. 47) e, isso não é uma questão vulgar pois, é que “essas coisas são apenas um símbolo da superioridade aristocrática de seu espírito” (p. 48).

Portanto, percebemos que, o texto de Eça está fortemente ligado a uma tradição do pensar moderno, já que o trabalho feito com a personagem Fradique n’As correspondências reitera o modelo de hábitos e costumes que um homem moderno deve possuir, de acordo com o proposto por Baudelaire e a sua pintura da vida moderna.

¹Texto apresentado à disciplina de Literatura Portuguesa Moderna.
²Aluno do curso de Graduação em Letras – Habilitação em Língua Portuguesa, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
³Romance de Eça de Queirós, que narra a estória de adultério entre Luísa e Basílio, e todos os desenlaces desta aventura amorosa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUALUSA, José Eduardo. Nação Crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes. – Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. — Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. — [Coleção Leitura]
PINTO, Fábio Bortolazzo. Um velho romance contemporâneo. In: QUEIRÓS, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. – 2.ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.
QUEIRÓS, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. – 2.ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.
_____. O primo Basílio. – edição comentada e anotada por Paulo Franchetti. – São Paulo: Abril, 2010.
SARAIVA, António José; LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. – Rio de Janeiro: GB, Cia Brasileira de Publicações, 1969. p. 897-946.

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