18 março 2011

Algumas considerações sobre a mulher moderna à luz de Eça, Agualusa e Hobsbawm¹

Por Daniel Prestes da Silva²

O advento da modernidade traz, dentre muitos aspectos, uma perspectiva dúbia em relação à mulher e à posição que ela ocupa.

A fim de trabalhar essa temática, utilizaremos como referencial teórico os textos A nova mulher e Quem são quem ou as incertezas da burguesia, que se encontram no A era dos impérios, de E. Hobsbawm (2010), assim como, a título de exemplificação, as obras literárias Nação Crioula, do angolano Eduardo Agualusa e O primo Basílio, do português Eça de Queirós.

Em seu livro, Agualusa, resgata a personagem Fradique Mendes, da obra As correspondências de Fradique Mendes de Eça de Queirós, em um romance pós-moderno que, ambientado na modernidade, mostra a “visão do colonizado” sobre o que foi a modernidade, neste caso a portuguesa. Em sua composição, Agualusa, faz com que Fradique viaje pela colônias portuguesas, africana e brasileira, bem como se apaixonar por uma negra, a quem ele resgata do cativeiro. Já O primo Basílio, conta a estória do adultério incestuoso de Luísa com seu primo, Basílio, e todas as conseqüências de seu ato.

A primeira coisa que devemos ter em mente sobre a questão feminina, nas obras aqui apresentadas, é a de que os exemplos são provenientes de uma sociedade que se encontrava a margem das questões modernas, sejam elas culturais, sociais ou científicas; comparando com outras, como a inglesa e francesa.

De acordo com Hobsbawm (2010), no capítulo dedicado à mulher burguesa (A nova mulher), percebemos que esta possui uma maior autonomia em questões relacionadas ao seu corpo, proveniente de uma nova estrutura familiar que prioriza os encargos monetários de se ter crianças, como é o caso de Leopoldina, a Pão e Queijo de O primo Basílio, que em certo momento da trama, quando se encontra a conversar com Luíza na casa desta, que crianças estão aí para embaraçar a vida das mulheres. Porém, neste caso, não há apenas alusão aos gastos que les infants trazem, mas também o embaraço sexual, pois, de acordo ainda com a personagem, quem quereria uma amante que tem o corpo estragado pela gravidez e que sempre tem pequerruchos às barras da saia? Tal reflexão da personagem se justifica pelas constantes aventuras extraconjugais que ela tem e que só lhes são possíveis por conservar o seu corpo e sua liberdade doméstica.

Na perspectiva da personagem Luísa, esse aspecto toma outro teor, evidencia “certo atraso” nas convenções sociais portuguesas, que “não estaria preparada para uma mulher que, além de adúltera, também fosse mãe de família”, como foi o caso dos franceses com sua Mme. Bovary.

De mesma “autonomia” goza a personagem Ana Olímpia, do romance Nação Crioula, onde, além de ser instruída (como todas as outras personagens aqui citadas, o eram, de certa forma), não tem filhos e circula “livremente” pelos salões luandenses.

Entretanto, essa “liberdade” escamoteia uma situação de dependência em relação ao homem e o seu papel de provedor e da segurança adquirida por meio de um bom casamento, como nos diz Hobsbawm.

Nos romances, isso fica claro quando, tanto Ana Olímpia como Luísa ou mesmo Leopoldina só vêem a possibilidade de terem seus problemas resolvidos por uma figura masculina. No caso de Ana Olímpia, ela só pode libertar-se da condição de escrava, a qual retornou por culpa de seu cunhado, com a ajuda de Arcénio de Carpo e, em menor grau, Fradique, como vemos no excerto a seguir:
Libertar Ana Olímpia, explicou-me depois [Arcénio de Carpo para Fradique Mendes], fora tarefa fácil: Mandei outros cinco homens a casa de Gabriela Santamarinha. Arrombaram a porta, amarraram a pobre senhora à cama, amarraram a restante escravaria e vieram-se embora. (AGUALUSA, 2001, p. 62)
Quanto a Leopoldina e Luísa, percebemos a necessidade da presença masculina, quando as duas só conseguem pensar em Castro como uma alternativa para que Luísa se livre de Juliana sem causar um escândalo:
“Leopoldina tossiu, sentou-se mais à beira do sofá, e depois de sorrir:
– Pois eu mandei-o chamar porque temos uma coisa a dizer-lhe.
[...]
– Aqui está o que é. Eu vou direto às coisas, sem preâmbulos. – E teve outro risinho. – Aqui a minha amiga está num grande apuro, e precisa um conto de réis.” (QUEIRÓS, 2010, p. 405)
Essa dependência em Luísa é tão forte que, mesmo recebendo o perdão de Jorge pelo adultério incestuoso, ela morre de febres originadas pela culpa. A culpa de Luísa advém também de “certo atraso” cultural de Portugal; “[e] Luísa, como legítima representante da burguesia lisboeta [...] não compreende o adultério como um dever aristocrático” (VALLE, 2002).

Essa relação entre liberdade e não-liberdade feminina é um dos paradoxos vistos na modernidade, o qual Hobsbawm leva em consideração em seu A nova Mulher.

Contudo, há mais que essa relação familiar no enredo d’O primo Basílio, que é a relação patrão versus empregado doméstico.

Ambos são pertencentes de uma classe burguesa, como explica Hobsbawm em Quem é quem ou as incertezas da burguesia, embora um usufrua de uma vida de luxos, provenientes de salários advindos de cargos públicos ou notas e aplicações bancárias; enquanto o outro apenas sobrevive por meio de uma remuneração ganha por um trabalho braçal e servil.

Nesta relação, ainda sob a perspectiva da mulher, temos Luísa que despreza sua criada por não compartilhar dos mesmos luxos (artigos de toilettes, jóias, instrução etc.) e beleza; Juliana, por sua vez, inveja a senhora por ser mimada, amada e não ter obrigações de trabalho, por conta de ter tido um casamento vantajoso, o que reitera a condição de dependência dantes abordada.

É essa relação, empregado versus patrão, que suscitará os problemas de Luísa no desenrolar da trama, principalmente.

Interessante observar que, na modernidade, de acordo com Hobsbawm, há um crescente no número de empregados domésticos, devido ao fato de que, a classe burguesa com seu dinheiro (além de não compactuar mais com os ideais escravistas), passou a contratar mais, aumentando o convívio, pelo fato de seus empregados conviverem sempre muito próximos de si. Isso é notado no romance de Eça, com ênfase na relação entre Luísa e Juliana.

Em Nação Crioula tal relação (patrão versus empregado doméstico) é quase inexistente (ou mesmo, menos importante), muito embora se verifique a importância que o homem moderno dá aos empregados domésticos como força de trabalho essencial, evidenciando o horror que eles tinham pela escravidão, que sugeria um pensamento retrógrado, de povo não civilizado. O fato de escravos “participarem” da composição da obra de Agualusa, mesmo que em solo das colônias portuguesas, reitera o atraso português, no que tange as questões modernas.

Enfim, muitos aspectos aqui poderiam ser abordados e discutidos, dentro da temática: a mulher na modernidade, inclusive, atendo-se a própria construção da narrativa, como é o caso de Luíza em O primo Basílio, que assume diferentes papéis de acordo com o espaço-tempo, mostrando assim como o tema é rico em questões para análise.

¹Texto elaborado pra disciplina de Literatura Portuguesa Moderna.
²Aluno do Curso de Graduação em Letras - Habilitação em Língua Portuguesa.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUALUSA, José Eduardo. Nação Crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes. – Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.
HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios, 1875-1914. – São Paulo: Paz e Terra, 2010.
QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. – edição comentada e anotada por Paulo Franchetti. – São Paulo: Abril, 2010.
VALLE, Camila do. Luísa-Gatsby: uma trajetória do deslocamento do centro de referência cutural. In: SEMEAR. Rio de Janeiro, n. 6, 2002, p. 59-68.

2 comentários:

  1. MARA seu texto.
    de verdade! :D vai virar mais uma fonte bibliográfica
    rs

    uma vez o jornal da ufrj publicou um texto chamado "eça na ambiguidade", da maria lúcia lepecki. acho que tem na internet. dá uma olhada! é ótimo!!

    bjuu *=

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  2. Aldiane Nascimento28 de julho de 2011 08:25

    Parabéns pelo texto! Adorei!! Trata-se uma excelente reflexão sobre a situação da mulher na sociedade moderna.

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Ronrone à vontade.