30 janeiro 2011

Pré-amar

E temos essas horas, essas grandes águas de intensa devoção. Do meu próprio caminho faço tua estrada mar e não sei o que é meu, ou a ti pertence por natureza, me entrego. Sei dessa febre das águas e do teu corpo carrego essas marcas liquidas. traços do que ontem foste doce e hoje és ácido fermentando as raízes da várzea.

Meu destino tem essa cegueira em que nasces lua dentro da minha pele. O sal de tua água se faz pó em minhas terras. E minha margem fica escrita de ti, porque sei que de longe voltarás maré, assim aguardo o caminho de volta. Segredo revelado nesses cortes de proa, no silêncio noturno do rio.

O rio que sou sempre cala em mim tuas mãos. Trago tua voz sufocada em minhas veias e silentes somos assim porque sabemos que nessas águas tivemos as vidas traçadas. Por viver pouco esse amor não importa, as águas cumprem o fado e tua verdade se aflora vida. Vitória-régia, lembrança do amanhã, tua ausência.

Ainda há algum resto de lua. Nessas poucas horas deságuo em ti. Sou todo abandono, mas não há desespero. Os rios do meu avesso se inscrevem lodo em tuas pedras expostas. E aqui nos encontramos carne. Agora sou águas de lanço e pra ti me faço braços de mar, corpos que se fazem palavra oceano.

Deságuo em tuas águas e único, por um instante, é esse rio-mar de nossa história. Amanhã volto à mata e subo as montanhas. Tu, à África e ao mundo. Mas aqui fomos nós. E o que era barro, negro, sal e azul distante, agora é só água e uma outra história vindoura. Uma outra lua. As águas vivas.

Alto-mar segues.

Rio me entranho. A cidade me tem.

Belém, essa Veneza proibida.

Aqui, a foz. Nossas marcas, marés subterrâneas.

Das águas eu vim, rio que sou em ti.

LEITE, Daniel da Rocha. Águas imaginárias. - Belém: IAP, 2004. p. 51. - (Prêmio IAP de Literatura)

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